II Tm. 2, 14-26. Princípios Para A Correção Fraternal – Necessitamos do Auto-Exame!

maio 27, 2012 at 7:27 pm (Teologia) (, , , , , , , , , , , , , )

Alguns de meus mais recentes escritos têm como móbil a polêmica religiosa instaurada entre meus irmãos, cristãos de confissão evangélica, pretendo com este breve escrito encerrar minhas reflexões acerca do assunto, e, quem sabe, contribuir para edificação de todos os envolvidos; não proponho algo novo ou desconhecido de qualquer um deles, apenas chamo a atenção para o que, estou certo, eles conhecem mais ainda que eu mesmo.

O evangelicalismo brasileiro apresenta-se multifacetado, numa gama de denominações e grupos aparentados entre si pela mesma profissão de fé sobre a Bíblia Sagrada, mas distanciando-se em tendências e aspectos de ordem prática, litúrgica e, relativamente, no que tange à doutrina. Todavia, essa relativa diferença doutrinal, que é tolerada em relação a aspectos periféricos da fé, parece ameaçada em tornar-se um abismo teológico posto entre nossos irmãos. De um lado temos aqueles que se pretendem mais ortodoxos e advogam uma leitura bíblica livre de influências da cultura secular – sobretudo, da filosofia existencialista – e do outro temos irmãos que têm tomado mais livremente a contribuição desta cultura secular e aplicado ao seu método de exposição e ensino do kerigma. Bom lembrar que nenhuma destas atitudes é nova ou inovadora no panorama do Cristianismo, ainda que a segunda atitude, cá em nossas paragens assuma “ares de novidade”!

Respeitáveis representantes da posição mais conservadora – e não os chamo assim com qualquer sentido pejorativo – identificam os ensinos de outros respeitáveis pastores, tais como: o Pr. Ricardo Gondim, o Pr. Elienai Cabral e o Pr. Ed René Kivitz, como ensinos da corrente teológica identificada por Teísmo Aberto – que guarda muitas semelhanças com a Teologia do Processo,

Alfred N. Whitehead (1861-1947). Filosofo britânico cuja especulação metafísica acerca de Deus, conhecida como Teologia do Processo, mantém semelhanças com a proposta mais atual do Teísmo Aberto

fruto das reflexões teológicas do famoso filosofo britânico A. N. Whitehead (1861-1947) e é marcado por influências de pensadores existencialistas e existenciais, além de outros – doutra parte, estes respeitáveis irmãos continuam seu exercício ministerial, de pregação e de ensino, e por meio do cyberespaço divulgam abertamente suas novas percepções e abordagens do texto sagrado, na maioria das vezes, sem responder as críticas ou contra-atacar. Todavia, seus textos refletem a tristeza e a fragilidade em que se põem estes homens de Deus em face da situação que se avoluma; diversos sites e blogs evangélicos seguem uma trilha de reprodução ao ataque violento e lamentável, não apenas à teologia destes irmãos, mas também, e, principalmente, as suas vidas, no âmbito pessoal e ministerial.  

Sugiro não na qualidade de teólogo – o que realmente não sou –, mas na qualidade de um irmão que se importa com sua família, que consideremos uma das formas como o apóstolo S. Paulo lida com conflitos internos, decorrentes de problemas doutrinais. Após orientar o jovem discípulo, Timóteo, líder na igreja em Éfeso, acerca do fervor e aspectos fundamentais ao exercício de seu ministério pastoral, o apóstolo lhe transmite orientações mais especificas em como lidar com aqueles que se desviam dos ensinos das Sagradas Letras apartando-se da sã doutrina (II Tm. 2,14-26), essas orientações podem ser sintetizadas como segue:

(1º) Trazer sempre à memória a doutrina da Igreja, ou seja, ensinar contínua e repetidamente as verdades da fé (v. 14).

(2º) Não contender sobre palavras, pois este não é um método proveitoso, pelo contrário pode ser destrutivo para fé dos irmãos (v.14).

(3º) Ter uma conduta de vida conivente com a essência da mensagem ensinada (v. 15).

(4º) Ser fiel na exposição e no ensino da Palavra de Deus, no grego o apóstolo usa orqotomew que significa cortar, ou traçar em linha reta, muitas são as aplicações metafóricas nas cartas de S. Paulo a Timóteo, mas, provavelmente neste contexto se aplique ao exercício de traçar sulcos retos para a edificação das paredes do edifício, a idéia aqui é que Timóteo, como bom ministro de Deus tem de distribuir em retidão a Palavra da Verdade, aqueles que expõem a Palavra devem fazer isto sem furtar-lhe nada, devemos anunciar o Evangelho na sua pureza, na sua retidão (v.15).

(5º) Evitar falatórios profanos, aqui se refere provavelmente a conversações levianas ao trato com trivialidades – Gr.  kenofwnia, aquilo que é vazio, vão, conversa fiada[1] – no ensino e na exposição do Evangelho devemos evitar aquilo que não tem relevância, utilidade, para este serviço, pois estes jogos de palavras e sutilezas acabam degenerando em apostasia, e, o apóstolo menciona exemplos disto (vv.16-18).

(6º) O anúncio e ensino da verdade devem ser acompanhados de santidade de vida (v.19).

No versículo vinte e três (23) é enfatizada a ordem a que rejeitemos [...] questões loucas e sem instrução [...] porque o resultado do envolvimento nestas querelas são apenas contendas, já que não expressam desejo sincero para com a verdade, suas motivações são alheias ao espírito cristão. S. Paulo, dirá que ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor. (v.24) 

Essas diretrizes devem ser acompanhadas de uma disposição sincera em contribuir com o amadurecimento espiritual do irmão, com a edificação do Corpo de Cristo e também conduzir à glorificação do nome de Deus.

Embora, não forneça maiores detalhes podemos deduzir que os discípulos de S. Paulo tenham se portado de acordo com princípios semelhantes, o exemplo da atitude de Priscila e Áquila, discípulos do apóstolo, em relação a Apolo (At. 19, 24-28) é uma demonstração bíblica deste princípio – que por economia chamarei de correção fraternal –, embora Apolo agisse fervorosamente na proclamação do kerigma lhe faltava o conhecimento mais exato deste, constatando a presença de Deus no ministério do pregador e sua sinceridade no anúncio, os dois discípulos de S. Paulo o levaram para junto de si e lhe transmitiram instruções mais exatas acerca do caminho de Deus (At.17, 28).

Naturalmente, devemos ter em mente que para que possamos aplicar uma correção fraternal devemos estar certos que o ensino de nosso irmão incorre em erro ou desvio das verdades fundamentais da fé, que sua aplicação e proclamação trarão dano espiritual a ele mesmo e ao Corpo de Cristo; devemos ter conhecimento de primeira mão acerca do que ensina este irmão, e, também uma compreensão clara de suas influências hauridas da reflexão e no diálogo, neste último, é necessário que o proponente do ensino seja nosso principal interlocutor. A exposição pública deve ser precedida por essas atitudes, o diálogo com aquele que cremos necessitar rever seus ensinos deve, a exemplo da atitude de Priscila e Áquila, ocorrer primeiramente numa esfera mais reservada, somente numa etapa posterior ser levado à congregação e mais adiante ao público de modo geral (Mt. 18, 15-17).

Uma atitude de autocrítica é necessária a cada servo de Deus, não podemos restringir o auto-exame apenas ao momento de participação na Ceia do Senhor (I Co. 11, 28), antes é necessário que constantemente sejamos críticos de nós mesmos, de nossas convicções, de nossas atitudes, daquilo que consideramos ser cristão; Michel Foucault (1926-1984) disse certa vez que “uma sociedade que não se crítica a si mesma é perigosa”,  o mesmo ocorre com cada um de nós, individualmente.  Este é o tempo em que a Igreja necessita colocar-se em crítica, o tempo em que cada um de nós, que professa fé em Cristo, tem que se colocar em crítica, examinando sua consciência diante de Deus


[1] Conversa Fiada. Devo essa acepção a Fritz Rienecker & Cleon Rogers, em sua Chave Lingüística do Novo Testamento Grego.

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As Constituições de Anderson de 1723 – Um Marco Para a Ascensão da Maçonaria Especulativa.

maio 23, 2012 at 3:36 am (Ocultismo & Esoterismo) (, , , , , , , )

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Bela Edição da Obra Maçônica.

O Reverendo Presbiteriano James Anderson, nasceu na Escócia, em 1675, formou-se em Teologia e foi ordenado ao Ministério em Londres; onde exerceu papel decisivo para a grande reforma da Maçonaria no século XVIII, reforma esta que resultou na fundação da Grande Loja de Londres – que deflagra a ascensão do caráter especulativo da Maçonaria, em detrimento de aspecto “prático”.

A decisão de algumas autoridades maçônicas em coletar antigos documentos, com o objetivo de resgatar antigos usos, colocou nas mãos de Anderson exemplares raros de algumas “Constituições Góticas”, sob a autoridade da Grande Loja (1721) e do Grão Mestre, Anderson iniciou a compilação destas Constituições fazendo uso de um método inovador. Em 1723 submeteu seu exemplar, intitulado “Livro das Constituições”, ao exame das Lojas que, por sua vez, sugeriram pequenas emendas e autorizaram sua impressão sob o título: The Constituitions of the Free-Masons, Containing the History, Charge, Regulations, etc., of the Most Ancient and Right Worshipful Fraternity. For the Use of the Lodge. (As Constituições dos Franco-Maçons,Contendo a História, as Obrigações, os Regulamentos &c. Dessa Mui Antiga e Mui Venerável Fraternidade. Para o Uso nas Lojas).

Constituições de Anderson - 1723. Editora da Fraternidade, 1982, Trad. & Introd. João Nery Guimarães

“Saboreando” meu precioso exemplar.

Este é um documento de suma importância para o conhecimento da Maçonaria, em seus múltiplos aspectos. Faz alguns anos obtive, numa rara oportunidade, o exemplar que uso para estudo (vide fotografias), uma luxuosa (1ª) edição fac-símile, bilíngüe (inglês/português) em capa dura, 27 X 20 cm. Com dedicatória de seu tradutor, Mestre Maçom, João Nery Guimarães (1921-2007).

O tradutor encerra a Introdução à obra com alerta acerca da importância fundamental que se constitui o conhecimento da Constituição de Anderson:

[...] o maçom necessita conhecer as “Constituições” de Anderson, para poder penetrar no verdadeiro espírito da Maçonaria, evitando assim desvios e inovações que contariam a Tradição, pedra angular da Instituição.

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O Fantástico Modo dos Gatos e Seu Culto. – Extrato do Necronomicon, Por Donald Tyson

maio 6, 2012 at 3:26 am (Ocultismo & Esoterismo) (, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , )

Algumas Considerações Introdutórias.

 

                Presume-se que Necronomicon seja uma obra fictícia, cuja primeira referência se encontra no escritos de Howard Philip Lovecraft (1890-1937), romancista norte-americano apaixonado pela literatura, ciência e ocultismo, que tentou, por meio da simbiose entre a ciência e o ocultismo, criar uma epopéia cósmica expressa num conjunto de contos intitulados Weird Tales (Contos Sobrenaturais), publicados apenas após sua morte, Lovecraft permaneceu desconhecido enquanto vivo, instalou-se em Nova Iorque, onde vivia em total reclusão, a penúria e o cansaço eram constantes em sua atividade de escrita, apenas após 1945 suas obras passaram a exercer poderosa influencia na literatura norte-americana.

            O Necronomicon seria um relato das peregrinações de Abdul Alhazred – também chamado o árabe louco – pelo deserto de Roba el Khalieh – o Espaço Vazio – mas, também se constituiria num Grimório, um poderoso livro contendo segredos da evocação dos mortos e conjuração de demônios muito antigos, segredos estes aprendidos com os titãs antediluvianos. O Necronomicon foi escrito em Damasco, na língua árabe, Al Azif é seu nome original, expressão que designa o chilrear de insetos, tido pelo povo do deserto como o uivar de espíritos, donde também se diz: O Uivar dos Demônios. O título grego Necronomicon é reportado a Theodorus Philetas, que segundo consta, no ano de 950 teria traduzido Al Azif para aquela língua; há controvérsias acerca de qual seja significado original teste título, talvez Necronomicon signifique “Uma imagem das leis dos mortos”, nekros (cadáver), nomos (lei) e eikon (imagem), todavia, tem sido mais comum considerar que este seja “O Livro da Lei dos Mortos”, sendo nomicon (Livro da Lei) + Nekros, ou seja, Necro-Nomicon.

            Lovecraft criou uma aura de realismo fantástico em torno da existência do Necronomicon, pois mesmo dizendo-o fictício, chegou a afirmar que a tradução latina do Necronomicon (1232) foi banida pelo Papa Gregório IX, e, que haveria duas cópias desta tradução, uma em LondresMuseu Britânico – e a outra em ParisBiblioteca Nacional – devido esta ambigüidade muitos necronomicons têm surgido, e, alguns têm servido como livro fundamental de certos grupos de caráter esotérico, como por exemplo, um grupo italiano chamado Ordem Rosa Mística – cujo fundador, Frank G. Ripel detinha alto título no Rito Menphis-Mizraïm (Maçonaria).

             O capítulo que transcrevemos, a seguir, consta na misteriosa versão do Necronomicon, elaborada por Donald Tyson (1954-), especialista em Ciências Ocultas, traduzido da edição em língua inglesa por Ana Death Duarte, para Editora Madras, São Paulo, 1ª Edição 2007.

 

O Fantástico modo dos gatos e seu culto.

Em nenhuma outra terra o gato é tratado com maior veneração do que no Os gatos exerciam fascínio sobre a civilização egípcia. imagem do bolg: httt://alfa-asp-blogspot-com-brEgito, pois, quando mortos, era costume fazer com que esses animais fossem mumificados, e tão freqüente era essa prática que eles encontrados em todos os locais de descanso dos mortos, enquanto em vida eram respeitados de forma similar pelas pessoas comuns e por nobres. Desse modo, o ato de matar um gato é considerado uma forma de assassinato, e o homem que cometer tal ato é evitado ou até mesmo apedrejado até a morte. Sob a regência dos bispos, os cristão buscaram colocar um ponto final nessa idolatria bestial, e os gatos mortos não mais são mumificados. No entanto, o respeito que um egípcio tem em relação aos animais vivos desta espécie não diminuiu. Ainda se crê que os gatos tenham o poder de compreender a fala humana, entretanto o idioma antigo da terra ou a linguagem dos gregos, ou ambos, nunca seja utilizado.

A proibição da matança de gatos é fácil de ser compreendida quando se leva em consideração que a região do Nilo perto do Delta é a terra de cultivo mais fértil em todo mundo, produzindo colheitas pródigas de grãos que, inevitavelmente, seriam diminuídas por  camundongos e ratos, além do que essa praga se multiplicaria sem restrição, não fosse pelos inúmeros gatos a caçá-los.

Permitia-se que entrassem e saíssem das casas, das lojas e das igrejas sem restrições; e caso um gato fosse ferido por uma carroça ou algum outro infortúnio, sempre alguém pegaria o animal e cuidaria dele até que ele morresse de seu ferimento ou se recuperasse.

Os gatos têm a segunda visão sem necessidade alguma de consumir aranhas brancas do deserto. Quando um gato pára e olha fixadamente com intenção em um local que parece vazio, é certo que esteja olhando para um fantasma ou alguma outra criatura que passa despercebida pelos homens. Logo, onde que um gato esteja presente, nenhum espírito pode entrar sem ser observado, e é por esse motivo que os feiticeiros utilizam os gatos como observadores contra intrusos vindos de outros reinos. Os espectros da noite ressentem-se dessa atenção e têm inimizade com os gatos. É verdade, também, que os gatos vêm através dos encantos da magia, de forma que nenhum bruxo é capaz de mascarar sua identidade nem passar invisível no local onde u m gato observa. De todos os animais, os sentidos dessa criatura são os mais sutis. Embora os olhos de um gato nãos sejam mais aguçados do que os de um falcão, nem seus ouvidos mais afiados que os de um cão, ele vê e ouve além desta existência material que nem o falcão nem o cão podem ouvir.

Outro talento possuído por esse notável animal é a habilidade de entrar e sair novamente do mundo dos sonhos com muito mais facilidade que o homem tem de adentrar uma habitação ou sair dela. Aqueles perdidos em sonhos são, às vezes, conduzidos de volta a nosso mundo pelos gatos que passam, os quais têm uma afeição por nossa raça e estão sempre dispostos ajudar quando tratados com dignidade e bondade. O homem que dorme com um gato em sua cama, dorme seguro, pois tem um guia constante para removê-lo dos entrelaçamentos intricados de seus pesadelos. Foi escrito que os gatos sugam a respiração de bebês quando dormem e dessa forma privam-nos da vida, mas essa é a prática de Shub-Niggurath e de suas filhas, as quais os gatos tentam afastar do berço da criança; e nisso são eles, por vezes, bem-sucedidos, além de nada ser conhecido a respeito do fato e, às vezes, eles falharem em sua tentativa e serem encontrados sobre o corpo da criança, sendo acusados de assassinato por mães ignorantes.       

A deusa de todos os gatos é Bast [ou Bastet][1], representada na forma de um gato ou, às vezes, de uma mulher com cabeça de um gato. Ela é cultuada principalmente em Bubástis[2], na sétima província do Baixo Egito, onde seu culto subsiste até os dias de hoje a despeito de esforços ardorosos por parte das igrejas em erradicá-lo, pois, embora seu culto seja jovial e alegre, os bispos cristãos odiavam-no por sua mácula pagã e sempre tentavam destruí-lo. Os adoradores da deusa passam sem serem vistos a maior parte do ano, no entanto, no festival de Bast na primavera, regozijam-se e divertem-se uns com os outros e com as pessoas da cidade, cantando, tocando instrumentos musicais e caminhando pelas ruas. O que mais inspira horror e desgosto aos cristãos é a prática das mulheres, que, periodicamente, erguem suas saias e revelam suas partes mais íntimas em extravagante exibição, vista como luxuriosa, com os joelhos separados. Elas fazem isso em honra À deusa dos gatos, a qual retira seu poder da Lua.

Os adoradores de Bast podem ser reconhecidos por sinais sutis, pois muitos têm uma cicatriz na forma de uma Lua crescente em alguma parte de seus pescoços e é costume deles cortarem suas unhas de forma a ficarem pontiagudas; eles fazem de forma sutil para atrair pouca atenção, no entanto a marca é universalmente reconhecida pelos cidadãos comuns e mercantes da cidade, que conferem aos adoradores de Bast um grande respeito e reduzem os preços de suas mercadorias quando percebem esse sinal. Isso levou alguns a adotarem a moda, mesmo que nunca tenham feito parte do festival. Quando o corte das unhas é muito óbvio, os padres podem induzir os guardiões da cidade a capturarem o transgressor e arrancam suas unhas desde a raiz, como forma de punição por sue pecado, mas a prática continua não diminuída.

O templo de Bast uma vez estivera no centro da cidade e era renomado em todo o mundo por sua pureza e perfeição; há muito foi demolido e uma igreja foi erguida sobre suas fundações. Essa modesta igreja serve duas funções: durante o dia, é casa de Deus para os cristãos; durante a noite, porém, os adoradores de Bast encontram-se em uma câmara secreta atrás do altar, onde há uma estátua da deusa em pedra verde que lembra jade, na postura sentada sobre suas ancas em um pedestal cúbico de pedra negra. Essa estátua, resgatada da destruição do templo e preservada em segredo, tem o peso de um gato vivo e é perfeita em todas as suas proporções, de modo que parece viva e até mesmo move-se nas chamas bruxuleantes das lamparinas a óleo pelas quais a câmara é iluminada. Seus olhos são jóias de um azul-pálido colocadas em seus centros com cruzamentos de forma oval pontiagudos, tão bem efetuados pelo escultor que parecem ter a capacidade da visão. Sobre sua cabeça está um crescente lunar em pedra branca translúcida denominada pedra da lua e é da delicada cor variável do interior das conchas marinhas.

Os cultuadores da localidade da Bast põem oferendas de leite e de carne aos pés do pedestal que sustenta a estátua, as quais são consumidas pelos gatos vivos que vêm e vão na câmara por pequenas entradas na base das paredes. Depois de apresentarem suas oferendas, eles fazem preces silenciosas perante a deusa, sob suas mãos e seus pés, então partem com supremo decoro e suprema solenidade, em contraste com seu comportamento durante o festival da primavera. Diz-se, por parte dos membros do culto, que as preces entoadas à deusa dessa maneira nunca são recusadas.          


[1] N.T.: Na Mitologia egípcia, Bastet, Bast, Ubast, Ba-en-Aset ou Ailuros (palavra grega para “gato”) é uma divindade solar e deusa da fertilidade, além de protetora das mulheres grávidas. Também tinha o poder sobre os eclipses solares. Era esposa de Ptah, com quem foi mãe de Nefertum e Mihos. Era também a deusa dos gatos, que por vezes eram mumificados em sua honra. A esta deusa é tradicionalmente consagrado o dia 15 de Abril.

[2] N.T.: No “domínio de Bastet”, descobriram-se imensos cemitérios de gatos, dedicados à deusa.

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“Minados Por Dentro”, ou, Que Espírito e Que Sabedoria Animam as Disputas entre Nós?

fevereiro 22, 2012 at 2:54 pm (Religiosidade & Sociedade, Teologia) (, , , , , , , , , , , , , )

Unidos Pelo Sacrifício de Cristo na Cruz

Por: Carlos Eduardo Bernardo

Uma das características que mais dificultam o tratamento de certas enfermidades, a cárie, por exemplo, é que estas só são diagnosticadas quando seu estágio já é avançado e os danos causados ao organismo são, quase, irreversíveis. Esse quadro seria passível de relativa mudança caso adquiríssemos o hábito de nos submeter a exames preventivos e à consulta regulares com médicos e odontologistas. Mas, infelizmente, na maioria das vezes só recorremos aos profissionais da área da saúde quando os efeitos já são devastadores, no caso da cárie alguns tratamentos mais complexos – como o tratamento de canal – solucionam problemas de maior dificuldade, obturações e próteses são alternativas eficazes para solucionar problemas que nem deveriam existir, caso houvesse a devida prevenção, mas, como bem observou um amigo, odontologista, e, irmão em Cristo, por mais eficazes que sejam essas soluções, elas são artificiais e não se equiparam ao valor de uma dentição natural e saudável!

Minha avó, nascida na cidade de Salto – interior de São Paulo –, usava de expressões da sabedoria popular que, embora, diferentes das conceituações científicas expressam determinadas verdades acerca de fenômenos observáveis, na tentativa de explicar porque o um dente estava tão fragilizado, apesar de externamente não apresentar sinais tão facilmente discerníveis, minha avó usava uma fala curiosa, ela dizia: o dente foi minado por dentro! Neste caso, sua expressão destaca a sutileza e o poder destrutivo da cárie que atacando a parte mais interna do dente vêm corroendo-o, de “dentro para fora”, até que não passe de uma fina casca cuja quebra ao contacto com alimentos mais duros é grandemente facilitada. 

Essa digressão me leva a pensar na situação da igreja cristã no Brasil, em como, talvez, estejamos, de certa forma, sendo minados por dentro sem que nos apercebamos disto. Explico-me: temos hoje instaurado conflitos internos acerca de questões teológicas que devem ser resolvidos, mas cujos protagonistas não têm sido tratados do modo mais cristão possível – tenho sugestões simples, mas não inovadoras, para essa questão, mas não irei expô-las neste escrito – e, é o problema deste tratamento aos envolvidos que aparentemente se constitui na ação corrosiva pelo lado de dentro de nossos arraiais. Pois, embora a causa possa ser justificada, os métodos não são justificáveis; em suma, não seguimos a máxima de Maquiavel, os fins justificam os meios, antes acreditamos, junto a Aristóteles, que a verdadeira expressão da sabedoria é a procura dos melhores meios para atingir os fins adequados, adequados para que o homem alcance o que é nobre, e também, em nosso caso, para glorificação de Nosso Deus.

É certo que não devemos fazer vistas grossas ao que consideramos desvio dos ensinos das Sagradas Letras, todavia temos que ser fraternais no trato com nossos irmãos, o Didaqué (Didakh), um dos documentos doutrinais mais antigos do cristianismo (cerca 90-100 d.C.) nos ensina que a repreensão mútua – sobretudo, entre os que detinham a responsabilidade do ensino na Igreja – deveria ser feita [...] não com ódio, mas, na paz, como tende no Evangelho. (Did.15,3). Tal lembrete se faz necessário porque é possível que nossa repressão a um irmão não provenha do amor e do desejo sincero em que ambos agradem a Deus através da condução do irmão ao conhecimento mais correto de Seu caminho, mas sim de uma disposição de ódio, que ao contrário ao amor, é um sentimento desagregador no meio de qualquer comunidade.

Talvez, nos falte, hoje, como igreja, um exame mais atento de nossas disposições interiores, dos motivos que nos levam a agir, aquilo que o apóstolo S. Paulo diz acerca de nossa atitude ao aproximarmo-nos da ceia do Senhor – Examine-se, pois o homem a si mesmo, e assim como deste pão e beba deste cálice. (I Co. 11,28) – pode, e quem sabe, deve ser aplicado a todas as circunstâncias de nossa vida, ministerial ou não; ainda que na passagem em questão refira-se especificamente à participação na ceia do Senhor, o verbo grego dokimazetw  propõe a que o homem faça prova de si mesmo, noutras palavras ordena-nos – pois, o verbo está no imperativo – que pesemos nossa própria consciência, o que vale para cada membro individualmente vale para o a Igreja como um todo, o que vale para o momento da ceia vale para toda a nossa ação – lembro-me aqui da reflexão socrática, [...] a vida sem exame não é digna de um ser humano (Def. 38 a.) – essa consciência pode nos levar à percepção de como certas atitudes estão enfraquecendo nossa vida espiritual e colocando a perder a comunhão dos santos; penso aqui na atitude, deveras carnal – segundo as palavras do apóstolo (I Co. 3,3-4) – de opor, dentro da Igreja, partidos em contendas e dissensões, que ao que parece ocultam certo ciúme sob a máscara de preocupação com a sã doutrina. Talvez, não nos tenhamos apercebido, por falta de um auto-exame, que estamos sendo minados por dentro, que a igreja está sendo minada por dentro, e isso na medida em que nos entregamos apaixonadamente às discussões que, doutra forma, poderiam solucionar conflitos que grassam em nosso meio.  

Pautado numa passagem do Evangelho de S. Mateus (Mt. 20, 17-27) disse noutra oportunidade que o espírito que sustenta a vocação cristã não é espírito de disputa[1]; lembrando a passagem em que os discípulos queriam invocar fogo dos céus sobre os samaritanos, por não terem acolhido a Jesus (Lc. 9. 51-56), e na repreensão que lhes dirigiu o Mestre: Vós não sabeis de que espírito sóis. Porque o Filho do homem não veio destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. (vv. 55-56) advogo que este espírito também não é espírito de destruição.  

Participamos em Cristo Jesus, do espírito de mansidão (Gl. 6, 1), do espírito de fé (II Co. 4,13), do espírito da verdade (I Jo. 4,6), do Espírito da Glória de Deus (I Pe. 4,14), enfim participamos do Espírito de Cristo que testifica que somos filhos de Deus (Rm. 8, 9-17) e integramos Sua grande família. Numa família, naturalmente, pode haver divergências, mas tentamos resolvê-las em amor e respeito, jamais nos alegrando ou vangloriando quando apanhamos algum de nossos irmãos em erro, é neste espírito de mansidão que o apóstolo S. Paulo nos diz que devemos encaminhar o irmão faltoso (Gl. 6,1), o apóstolo diz ainda que, ao fazer isto, devemos “olhar por nós mesmos, para que não sejamos tentados”, ou seja, devemos examinar nossa própria fraqueza, pois, assim como nosso irmão caiu por sua fraqueza, nós também estamos sujeitos à queda devido a nossa fraqueza. E, por fim, S. Paulo ainda destaca que nos enganamos quando julgamo-nos mais perfeitos que nosso irmão, e, isso ocorre de várias formas: quando nos julgamos mais santos, mais honestos, mais espirituais ou mais ortodoxos que nosso irmão!  Está claro nesta atitude que nos falta um auto-exame que suscite o reconhecimento tácito de nossas limitações espirituais e da necessidade que temos, enquanto família, do agir cooperativo junto a nossos irmãos (Gl. 6,2). O apóstolo nos exorta neste sentido, que examinemos nossa própria conduta (v.4), talvez, fazendo isto encontremos motivos para nos alegrar – posto que, somos transformados, por Seu Espírito, de glória em glória à semelhança do Senhor (II Co. 3,18) – mas, isso não deve ser feito em comparação com nosso irmão: Porque cada qual levará sua própria carga (v. 5). Dito de outra forma, cada um é e será responsável por sua conduta diante de Deus.

Uma curiosidade que pode ser muito elucidativa é que a palavra espírito no latim é animus, donde nossa palavra ânimo, disposição interior; daí dizermos que nossa motivação – disposição interior – pode ser espiritual, sob o influxo do Espírito Santo, ou carnal, sob a égide de nossa mera e débil capacidade humana.

Com vistas a essa diferença volto-me ao texto de São Tiago onde tratando acerca do ofício dos mestres na Igreja, S. Tiago contrapõe duas classes de sabedoria; a sabedoria da carne – terrena, animal e diabólica (Tg. 3, 14-15) – e a sabedoria celeste, [...] que vem do alto [...] (v. 17). A primeira corresponde à ação sob motivação carnal – o apóstolo diz que é obra de inveja e de um espírito faccioso – e seu resultado é perturbação e toda obra perversa (v. 16), já da sabedoria que vem do alto, aquela cuja motivação é espiritual, ele diz que: [...] é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia (v.17).    

A disputa travada entre irmãos que se consideram representantes da teologia ortodoxa e irmãos, considerados por eles, heterodoxos – aos quais atribuem participação nos ensinos do Teísmo Aberto – pode ser encarada como uma disputa de motivações, e mais ainda, como uma disputa que pretende pôr em destaque a sabedoria que há nos arcanos divinos – conforme o exercício dos mestres no seio da comunidade cristã –, em contraposição a meras especulações humanas.  Todavia, será pelo fruto de ambos os envolvidos é que nos será possível discernir qual a motivação de cada um (Tg. 3, 11-12), pela mansidão de sabedoria com que tratar seu irmão (v.13), ao qual se opõe, é que veremos que sabedoria realmente está sendo exercida em seu ministério; a sabedoria que produzir justiça na paz deve ser reconhecida como aquela que provém do alto e cujo influxo é o Espírito, conclusão esta que evoca as palavras de S. Paulo, acerca da unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef. 4,3) objeto de nossa reflexão anterior.

Bibliografia.

DE ALMEIDA, João Ferreira (Trad.). A Bíblia Sagrada – Edição Revista e Corrigida, Rio de Janeiro / RJ, Imprensa Bíblica Brasileira. 1993.

PLATÃO.  Defesa de Sócrates. In: Coleção Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural S. A. 1972.

ZILLES, Urbano. (Trad. & Com.) Didaqué – Catecismo dos Primeiros Cristão. Petrópolis / RJ. Editora Vozes Limitada. 1978.


[1] Observação feita no primeiro parágrafo de meu texto “A Dignidade da Vocação Cristã e o Movimento Evangélico Brasileiro – Excurso a Efésios 4. 1-7”, disponível neste mesmo Blog.

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A Dignidade da Vocação Cristã e o Movimento Evangélico Brasileiro – Excurso a Efésios 4, 1-7.

fevereiro 14, 2012 at 1:09 pm (Religiosidade & Sociedade, Teologia) (, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , )

 

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

                Rogo-vos, pois, eu, o preso no Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados.

Com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor.

                Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.

                Há um só corpo e um só Espírito.  Como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação.

                Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos.

Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo.

(Ef. 4, 1-7)

Ao ler alguns artigos em sites evangélicos[1], pôs-me a refletir o quanto a unidade cristã é ameaçada quando disputas acerca de questões teológicas são travadas de modo apaixonado, e, sob o amparo de um forte aparato midiático. Muitos dentre nossos irmãos sofrem, aqueles que são contados entre as personalidades públicas, como Pr. Ricardo Gondim, pois além de ser alvo de artilharia pesada por parte dos articulistas e blogueiros, também é alvejado por muitos dentre o público evangélico – ainda por alguns que não têm a mínima idéia das dimensões reais das implicações teológicas de suas reflexões –, sofrem muitos irmãos que buscam nestes blogs artigos de conforto e edificação espiritual, mas que ali, por vezes, há apenas debates, unilaterais, que refletem apenas um amargo espírito de disputa, espírito alheio à nossa vocação, rejeitado pelo Senhor quando manifesto em seus discípulos (Mt. 20, 17-27). Pensando acerca desta situação apanhei um exemplar da Bíblia Sagrada e detive minha atenção no texto paulino em epígrafe, a partir de então o que fora uma vaga sensação de desconforto se tornou uma ocupação mais urgente de minha atenção. Pois, tocado pelas palavras das Sagradas Letras fui incapaz de permanecer indiferente, já que a indiferença é uma relação de não-valor, e, por reconhecer em meus irmãos o valor inestimável do qual participo pelo amor de Cristo, propus-me em escrever este breve apelo.

Dos versos da epístola paulina, é possível extrair, ao menos quatro proposições básicas: (1º) O cumprimento do ministério de nossa vocação deve se revestir de uma dignidade notável, pastores, doutores, são condutores e protetores do rebanho e devem ser exemplo para os fieis e para os infiéis. (2º) Três são as virtudes que devem marcar o ministério cristão: 1ª. A humildade, ou seja, o considerar ao outro superior a si mesmo; 2ª. A mansidão, não reagir violentamente às criticas que lhe sejam dirigidas, não se alegrar em debater e em “derrotar” seus críticos em debates; (3ª) A longanimidade, saber esperar para responder, amadurecer o pensamento, ponderar se o outro não está certo em suas observações – se pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar (Tg. 1,19). (3º) Essas virtudes compõem o pano de fundo de nossa relação com aqueles que, talvez, tenhamos que “suportar”, mas por quem somos, igualmente, “suportados”, e, entendamos bem isto, na relação que se processa entre nós, o que nos é pedido aqui não é tolerância, tolerância neste contexto seria até ofensiva. S. Paulo diz que devemos suportar uns aos outros e suportar é dar suporte, é sustentar, e, isso deve ser feito em amor; todas as virtudes acima, humildade, mansidão e longanimidade, só serão verdadeiramente componentes da vocação cristã se estiverem fundadas no amor e por meio do influxo deste amor é que estas virtudes crescem em nossas relações concedendo-nos a que sustentemos ao outro e a que sejamos igualmente sustentados pelo outro.

(4º) Há algo que temos de procurar, “guardar a unidade do Espírito”, isso não significa que o Espírito de Deus não seja uno, ou que precise de nós para manter-se em unidade, o termo grego é pneumatós e se refere aqui à unidade espiritual, de pensamento e também de vontade, que caracteriza a espiritualidade cristã, já que a espiritualidade cristã é procedente do Espírito Santo, e, Ele é princípio da unidade da Igreja, logo, guardar a unidade do Espírito corresponde a guardar a unidade de nossa vida espiritual, unidade que existe desde os princípios como obra do Espírito Santo e pela qual somos exortados a que a conservemos pelo vínculo da paz. Mas, isso só é passível de realização na dimensão de pertença a Cristo, enquanto Corpo de Cristo, este corpo tem de manter-se unido e essa unidade, certamente, não suprime as diferenças individuais, não temos todos que pensar igual, pelo menos não acerca das coisas secundárias, a unidade não se reduz a uniformidade. Num corpo os processos fisiológicos de diferentes órgãos, diferem entre si, mas todos cooperam para a manutenção do ciclo vital e é isso que se espera de cada um de nós, membros de Seu corpo particular (I Co. 12, 37).

Homens e mulheres de Deus podem divergir, e realmente divergem, em compreensão acerca de muitos aspectos da vida espiritual – afinal, não há acerca do mundo natural uma única representação que se possa dizer absoluta, por que esperar que haja acerca do mundo supranatural? –, todavia, mesmo estas divergências cumprirão uma função positiva quando originadas no desejo comum em contribuir para o [...] aperfeiçoamento dos santos [...] (v. 12), para a edificação do corpo em amor (cf. v.16). Stott, certa vez, afirmou que: Nas coisas primeiras devemos ter unidade, nas coisas secundárias liberdade e em tudo amor.

Acompanhando as divergências e polêmicas que se têm propagado no seio da Igreja, nos parece que o exercício fundamental das virtudes cristãs, fundadas no amor de Deus e que confirmam o andar digno de nossa vocação, têm sido abandonadas, ou estão cada vez mais ausentes. O desgaste e o ressentimento têm minado as disposições ao possível diálogo frutífero, parece haver incompreensão de ambas as partes e um perigoso “prazer”, principalmente por parte dos mais conservadores, mas não apenas destes, em destruir os argumentos de seus “oponentes” juntamente com sua imagem, reduzindo-os à condição de “hereges” ou “desviados”. A dignidade da vocação cristã, expressa na tríade, humildade, mansidão e longaminidade, não se refletem neste comportamento.

S. Paulo diz: Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação. (v.4) Não estamos em campos opostos, integramos o mesmo corpo e participamos do mesmo Espírito, vossa vocação, a vocação é da Igreja, é a vocação de cada membro, aquilo que é universal abarca cada indivíduo, portanto também se subsume na vida de cada um de nós. Essa formula paulina põe em destaque a solução cristã para o problema que mesmo os gregos sempre intentaram solucionar, a relação entre a multiplicidade e a unidade, o corpo sendo composto por muitos membros é simultaneamente um e único, mas, essa unidade se sustém sobre o princípio unificador vital, o Espírito Santo, que de modo análogo ao espírito, vivifica no âmbito sobrenatural o corpo. A esperança de nossa vocação também é uma e a mesma, aguardamos o término da promessa, prosseguimos [...] rumo ao alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (Fp. 3,14).  E prossigamos juntos em amor, ainda que deparando-nos com divergências que naturalmente surjam entre nós, procuremos solucioná-las e façamos isso com a discrição, o respeito e a comunhão que é devida a todos os homens e em especial àqueles que pertencem, como nós mesmos, a Cristo Jesus, o Senhor!

Talvez, por parte de teólogos abalizados, eu seja passível de críticas acerca de meu conhecimento teológico, pois não sou teólogo de formação, e, ressalto desde já, que não pretendo aqui ser mais ou menos ortodoxo que qualquer um destes meus amados irmãos, pois jamais me consideraria à altura de homens como o Pr. Ricardo Gondim, Pr. Ed René Kivitz, o Rev. Augustus Nicodemus, ou qualquer um dos articulistas do site Púlpito Cristão, pois além da sua maturidade espiritual desenvolvida na comunhão com Cristo, no exercício da vida ministerial, todos eles – e outros não diretamente mencionados – têm sólida formação teológica, muito mais do que eu possa pretender.

Aprendi e ainda aprendo com os sermões e escritos de cada um destes servos de Deus, oro para que eles continuem sendo canais de benções a todos os homens, e oro também para que cada um de nós demonstre em seus gestos e palavras, o amor de Deus, derramado em seu coração, procurando solucionar as divergências teológicas num grato reconhecimento de que servimos ao mesmo Deus Único e Pai [...] de todos, o qual é sobre todos, e por todos em todos (v.6) e que, portanto, nossas palavras e gestos ao atingirem – para o bem ou para o mal – nossos irmãos atingem também a nós mesmos, pois [...] individualmente somos membros uns dos outros (Rm.12,5) e atingem também ao próprio Senhor, posto que somos recipientes de Seu Espírito e Cristo habita em nós pela fé, daí quando fazemos qualquer coisa a um destes pequeninos irmãos do Senhor, a Ele fazemos também (Cf. Mt. 24, 31-46). Com certeza a dignidade da vocação implica em que desejemos ardentemente fazer sempre o bem a nossos irmãos e a todos os homens!

A graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo (v.7), estas palavras não deixam dúvidas que Deus trata com cada um de seus filhos particularmente, somente Ele tem plena ciência se laboramos no exercício dos dons que Ele nos concede, como capacitação sobrenatural, ou se agimos apenas com a capacidade humana, mas ainda que em certas ocasiões ajamos somente com a capacidade humana, não estaremos longe da vontade de Deus se fizermos isso exclusivamente para Sua glória. Tudo o que temos – e também o que somos – pertence a Ele!

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[1] Site Púlpito Cristão, artigos: “Teologias do Inferno”, por Maurício Zágari; “Ricardo Gondim, Rubem Alves e o Ateísmo Cristão”, por Leonardo Gonçalves / Pr. Silas Figueira; “Entrevista com o Rev. Augustus Nicodemus: Uma Análise dos Evangélicos de Hoje”; “Liberalismo e Teologia Relacional: O Evangelho dos Bebês Chorões”, por Leonardo Gonçalves, além de artigos nos blogs dos pastores Ricardo Gondim e Caio Fábio D’Araújo Filho.

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Procurando Compreender I Samuel 28 – “Prova” e “Contraprova”.

janeiro 8, 2012 at 7:27 pm (Hermenêutica & Exegese., Teologia) (, , , , , , , , , , , , , )

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

Observações Introdutórias.

Provavelmente, no diálogo com não cristãos, o texto de I Samuel 28 é o mais usado pelos ocultistas – espíritas, esotéricos e adeptos de cultos mágico-religiosos e outros – com o intuito de afirmar a possibilidade e a suposta aprovação de Deus – mediante o uso das Escrituras – da comunicação entre vivos e mortos. Afirmam eles que a clareza e ao mesmo tempo a literalidade da narrativa demonstram, de forma inequívoca, que foi realmente o espírito de Samuel que se comunicou com Saul através da médium (há um apelo especial aos versículos 12, 15 e 16). Em suas argumentações eles rejeitam, em absoluto, a hipótese de manobra fraudulenta da mulher ou intervenção diabólica.

Tanto teólogos católicos, quanto evangélicos – cito apenas: Josh Mc Dowell, Mark Albrecht e Brooks Alexander, atuantes como apologistas cristãos – concordam com essa forma de entender os acontecimentos narrados em I Samuel 28 – em contrapartida, outros teólogos evangélicos – dentre os quais se contam: o pastor e conferencista Raimundo de Oliveira, os apologistas Miguel Albanez e o pastor Natanael Rinaldi, além da equipe de teólogos comentaristas da Bíblia Vida Nova1 (a maioria cristãos de confissão batista) – têm discordado desta interpretação do texto e afirmam ter sido o acontecimento uma ação fraudulenta perpetrada pelo poder de forças demoníacas. Outrora, o presente autor se aliara ao segundo grupo de intérpretes com o propósito de “[...] orientar os irmãos e a todos os interessados, numa apreciação cristã-ortodoxa do texto em epígrafe, procurando sempre a fidelidade ao texto escriturístico, sobre o assunto em pauta, apelando às evidências internas, que cremos serem suficientes para elucidar qualquer dúvida que, porventura, venha perturbar os vossos corações.” Desta forma encerrei a introdução ao meu escrito “Procurando Compreender I Samuel 28”, produzido para a publicação no Blog do Instituto de Pesquisas Teológicas – Ipet –, por volta do ano de 2003. Jamais tive qualquer tipo de contato por parte de leitores daquele artigo em especial, e, o silêncio quanto ao texto me levou a pensar que ele, talvez, se enquadre em uma dentre duas categorias: aquela de textos tão insignificantes que o público prefere não se dar ao trabalho de discuti-lo, ou aquela de textos sobre assuntos tão triviais – portanto, de domínio do público em geral – que nem ao menos merecia ser lido. Mas, como sou humano (e nada do que é humano me é estranho2) procurei outra via ainda não explorada, aquela que considera a possibilidade do público estar tão acostumado a receber de modo acrítico todo tipo de informação que o texto, mesmo lido, teria sido assimilado sem suscitar qualquer questionamento! Se assim fosse, eu consideraria a situação verdadeiramente catastrófica, pois, isso ajudaria reforçar a falsa imagem, comum no seio da comunidade não-cristã contemporânea, acerca dos cristãos e dos homens de fé, o sensus comunis de que estes são “criaturas que não pensam”.

Todavia, após tantos anos pude constatar na Internet a existência de artigos que, não apenas pretendem confirmar, mas também refutar o meu texto, e, outros que de certa formam o desdobram e o complementam. Isso fortalece a impressão que há pessoas comprometidas com sua fé, que amam a Deus acima de todas as coisas e ao próximo com si mesmas (cf. Mt. 22,39) e que no afã de fazê-lo têm empregado todas as suas faculdades, sem exclusão de um acurado exercício intelectual. Não me considero dono e nem mesmo portador de uma “verdade especial desconhecida por outras pessoas”. Antes, desejo ser um cristão submisso por amor a Deus, e, procuro conhecer e viver a Sua vontade por Sua graça! Tenho plena convicção que no mundo, e, em especial no Brasil, há pessoas empenhadas em viver verdadeiramente um relacionamento com Deus e que muitas delas, senão a maioria, O agrada muito mais do que este que vos escreve. Porém, é Sua graça e Seu infinito amor que nos sustenta, logo, “prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação” (Fp.3,14).

Não falo em nome de nenhuma denominação, instituição ou grupo específico, pois, acredito que o Cristianismo é como uma “Grande Árvore” com tantos ramos que somos incapazes de enumerá-los, na maioria das vezes são visíveis apenas as suas folhagens sem que possamos distinguir os seus frutos, alguns estão robustecidos por um fluir sempre contínuo da seiva divina, outros têm, de tal modo, obstruídos os canais por onde ela deveria fluir que já estão quase secando, mas a Árvore é tão grandiosa que até mesmo as aves do céu nela se abrigam.

Creio que todas as nossas palavras devem ser de sã consciência e que nada devemos temer, em nossa exposição, exceto o causar escândalo a qualquer pessoa, acredito que todo homem sincero está interessado em que prevaleça a Verdade a reflexão sobre Procurando Entender I Samuel 28 pode ser considerada uma pequena contribuição a essa busca perene, ela se constitui numa breve reflexão sobre este assunto que envolve possíveis, diversas e minuciosas complicações de ordem hermenêuticas. Aprendi que a palavra refletir se origina do latim reflectere e significa “fazer retroceder”, “voltar atrás”, ou seja, “retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece” 3. Se, em meu texto, usei demasiadamente expressões como “talvez”, “deduzimos”, “é provável” e “possivelmente”, não foi “uma tentativa desesperada de escapar pela tangente, desviando-se por meio de conjecturas…” – como sugeriu um simpático apologista do Espiritismo – antes, tentei não dogmatizar determinadas afirmações específicas, num reconhecimento sincero que somente Deus domina sobre o absoluto e o relativo abarcando-os e transcendendo-os simultaneamente!

Sou grato a todos que, de certa forma, contribuíram a que eu repensasse este escrito, cristãos protestantes, católicos, evangélicos, espíritas e mesmo aqueles que não declararam sua relação confessional. Que Deus abençoe e ilumine, cada vez mais, a todos vocês em Cristo Jesus. Muito obrigado!

Observações Introdutórias.

Em meu antigo texto figuram argumentos que se pretendem provas contrárias à possibilidade da manifestação do espírito de Samuel naquela ocasião, no presente texto apresentarei estes argumentos seguidos de contraprovas que pretendem afirmar a possibilidade da manifestação do espírito de Samuel naquela ocasião. Aqui o texto está estruturado de modo que se alternem as “provas” e suas respectivas “contraprovas”, faço uso de aspas (“) porque tanto as “provas” , quanto as “contraprovas” devem ser encaradas como aproximações interpretativas, abordagens hermenêuticas que de algum modo propõem a elucidação do problema, ainda que, não tenham o caráter de provas e contraprovas absolutamente conclusivas.

1ª Prova. No texto original iniciei a reflexão desta forma: Bem, primeiramente devemos perguntar: Quem forneceu as informações que compõem este capítulo?

A própria Bíblia nos informa que o nome de Samuel deve ser descartado, pois:

Samuel era morto, …” (v.3)

As Escrituras não indicam ter sido Saul, e, é improvável que ele o tenha feito, pois estava desesperado ante o avanço dos filisteus, de tal modo, que não se daria ao luxo de ocupar-se numa atividade literária de tamanha monta.

Ora, pela minúcia com a qual os acontecimentos são descritos, podemos concluir que somente uma – ou mais – testemunha(s) ocular(es) poderia ter fornecido ao escritor sacro todas as informações contidas no capítulo. Não cremos ter sido a médium, posto que, se assim fosse, a descrição da visualização do espírito seria mais precisa e de ótica diferente – notemos que a narração começa com acontecimentos que precederam em muito o aparecimento da médium e são tão acurados quanto o restante do capítulo. Deduzimos então, que provavelmente, todas as informações deste capítulo procedem do testemunho de, ao menos, um dos servos de Saul. Isso é muito provável, pois foi a eles que Saul pediu que encontrassem uma médium e os mesmos demonstraram conhecê-la de antemão, posto que, sabiam exatamente onde havia uma (v.7) e isso a despeito da proibição real (vv.3, 9). Habitualmente estes servos eram estrangeiros (cf. I Sm.21,7; 26,6 & II Sm. 23,25 a 39), pagãos que provavelmente criam nos poderes mediúnicos daquela mulher – caso contrário não haveria sentido em levar o rei até ela – obviamente estes fatores justificam o estilo tão convincente da narrativa.

Tudo isso indica que o escritor sacro narrou os acontecimentos do ponto de vista do(s) servo(s) de Saul, da mesma forma que os escritores sacros, em outras partes da Bíblia, falam do ponto de vista humano (cf. Ec.3, 19; 5, 18; 9,7 & 9, 10) – entretanto, não significa que devemos interpretá-los sob o mesmo ponto de vista, ou pressupor que tal análise está perfeitamente correta para o povo de Deus ou ainda que seja um exemplo prático a ser seguido, autorizado por Deus em suas Escrituras, como infelizmente muitos vêm fazendo.

1ª “Contraprova”. Ainda que o relato proceda de testemunhas oculares – no caso os servos pagãos de Saul – a composição do escrito sagrado não se encontra sob a inspiração – e, digamos a supervisão – do Espírito de Deus? Se as coisas são realmente assim, não corrigiria Ele, no texto escrito, a percepção “distorcida” das testemunhas? É curioso que em nenhuma parte há indicação que as coisas não ocorreram segundo a ótica da narrativa! Outro pequeno detalhe para o qual chama atenção o hermeneuta Dennis Downing.

Alguns intérpretes se detêm muito coma percepção de Saul, como se o resto do relato fosse apenas descrever o que Saul entendeu. No entanto, o relato, segue no formato do resto do livro de Samuel, dando a entender que o que está sendo contado de fato ocorreu.

(DOWNING, 2004, Parte 1a, Evidências)

Chamar textos como os do Livro de Eclesiastes em apoio a minha proposta original, mais afasta do problema em questão, do que, dele nos aproxima, pois acumular textos sobre textos sem aprofundar realmente em nenhum deles e não considerar seus contextos é uma atitude perigosa, que, hoje, evito a qualquer custo. Aprendi a prezar por uma atitude de economia na exegese de textos – bíblicos ou não – a me postar o mais próximo possível do texto e do contexto sob análise – chamo isso de Princípio de Economia. No caso em questão devemos considerar que há outros problemas relativos ao Livro de Eclesiastes que o colocam num horizonte hermenêutico diferente àquele atinente aos Livros de Samuel.

2ª “Prova”. Não questionamos a sinceridade da médium em sua crença na real manifestação do espírito de Samuel, já que uma crença sincera não implica necessariamente que o objeto da crença seja uma verdade, ela poderia estar sinceramente enganada, e, é exatamente isso que procuraremos demonstrar na argumentação a seguir, passemos então a apreciação mais detalhada desta passagem enigmática, tendo em mente tudo o que foi dito até o presente momento.

2ª “Contraprova”. “[...] tendo em mente tudo o que foi dito até o presente momento.”Esta observação tem como objetivo manter como principio norteador a idéia de “ponto de vista”, ou seja, a idéia que “a narrativa se desenrola sob o ponto de vista dos servos de Saul”. Mas, se é assim, então todo o Livro de Samuel parece ter sido escrito sob este mesmo ponto de vista, e, precisaremos de pinças para retirar dele passagens escritas sob “o ponto de vista de Deus”, porque em nenhuma parte do livro Ele corrige o ponto de vista sob o qual é narrada a consulta de Saul.

Razões Para Não Crer Que Era Realmente o Espírito de Samuel.

3ª “Prova”. A Bíblia informa-nos, de modo categórico, que Deus não respondeu de forma alguma ao rei Saul.

Consultou ao Senhor, porém este não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.” (v.6)

No hebraico o verbo deixa claro que Deus não respondeu, não responde e não responderá nunca, e, isso é facilmente explicado pelo fato que tentar consultar Deus por meio de práticas ocultistas – espíritas, divinatórias e etc – consiste em não consultar ao Senhor, mas, sujeitar-se a forças alheias a Ele e por Ele condenadas (cf. Dt. 18, 9 a 14) por este motivo o cronista pode dizer que:

… Saul… interrogara e consultara a necromante e não ao Senhor …” (I Cr. 10, 13-14)

Os versículos, em lume, falam de modo totalmente concorde com o contexto escriturístico em que havia três formas pela qual Deus revelava Sua vontade aos homens em casos específicos, são elas:

01-Revelação Sacerdotal: ”nem por Urim”; 02- Revelação Pessoal: “nem por sonhos” & 03-Revelação Inspiracional (divina): “nem por profetas”.

Esta terceira é sobre a qual nos deteremos para analisar de modo sucinto, o verso nos revela que Deus não respondeu sequer por meio de Revelação inspiracional, – ou seja, de profetas – ora, Samuel era um profeta e não poderia falar, senão por inspiração divina, se realmente foi Samuel quem se comunicou com Saul suas palavras só poderiam provir de inspiração divina, portanto, seria o próprio Deus respondendo, mas, as Escrituras nos dizem que Deus não respondeu, logo, não foi Samuel quem transmitiu a suposta profecia.

3ª “Contraprova”. O fato das Escrituras afirmarem, de modo categórico, que Deus não respondeu a Saul, não implica em que Samuel não lhe tenha falado naquela ocasião. Observemos que em momento algum da narrativa é dito que é Deus quem falava a Saul. A narrativa é clara ao afirmar que era Samuel quem falava a Saul, e, não Deus, assim como, é clara ao dizer quem a mulher via naquele momento: “Vendo, pois, a mulher, a Samuel [...]” (v. 12). Talvez, tenhamos que distinguir este evento daqueles reconhecidos como ação profética sob o título de “Revelação inspiracional”, porque realmente Deus não respondeu a Saul, já que Saul realmente não consultou a Deus, mas sim a necromante (cf. I Cr. 10, 13-14) – o que por si já descarta a consulta a necromantes como equivalente a busca por direção divina –, talvez, seja por este motivo que a Septuaginta traduza – os versículos supramencionados – da seguinte forma: “[...] interrogara e consultara uma necromante, e Samuel o profeta o respondeu.” ().

4ª “Prova”. Segundo nos diz o narrador “Saul disfarçou-se…” e foi ter com médium (v.8), mas, não seríamos ingênuos em acreditar que tal disfarce tenha convencido a médium? Por que dizemos isso?

Bem, a própria Escritura diz que Saul “desde os ombros para cima sobressaía a todo povo” (I Sm.9,28). Isso significa que em Israel não havia homem mais alto que Saul, portanto, cremos que seria difícil a ele disfarçar-se de forma que alguém não o reconhecesse. Também, quando o “forasteiro” disse à mulher que queria que ela fizesse a consulta mediúnica , ela replicou-lhe lembrando-lhe o que o rei havia feito aos médiuns e adivinhos – insinuando até que a vinda a sua casa poderia ser uma cilada (v. 9) – em resposta o “forasteiro” garantiu-lhe “sob juramento” que nenhum castigo sobreviria a mulher se ela fizesse o que ele lhe pedia (v.10). Mas, arrazoemos, de que valeria a palavra de um “forasteiro” – mesmo sob juramento – diante do édito do rei? Poderia ele garantir que a mulher não sofreria castigo, enquanto o édito do rei dizia o contrário? É óbvio que o “forasteiro” disfarçado jamais poderia garantir tal coisa, a menos que ele fosse o próprio rei!

(Continua…)

1 Atual Bíblia Shedd, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.

2 Terêncio (2º séc. a. C.) – O Atormentador de Si Mesmo.

3 Aranha, Maria Lúcia de Arruda e Martins, Maria Helena Pires. “Filosofando – Introdução à Filosofia” Editora Moderna Ltda. 2ª. Ed. 1993, pág.74.

A pitonisa em En-Dor e o rei Saul.

Saul consulta a pitonisa em En-Dor.

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Concepção De Liberdade No Existencialismo Francês Segundo Jean-Paul Sartre.

novembro 9, 2011 at 9:31 pm (Esquema Para Aulas Filosóficas.) (, , , , , )

"O homem está condenado a ser livre". O Existencialismo é a concepção filosófica que valoriza de modo veemente a liberdade!

Existencialismo: “Modo de filosofar que põe o primado do existir sobre a essência e toma como objeto a análise da existência humana em sua realidade concreta e vivida”. (CURVILLIER, 1976, p. 59).
Premissa Central: “A existência precede a essência”.
Temas Fundamentais: Liberdade. Angústia. Desespero. Morte.
Principais proponentes: Há basicamente duas correntes participes dos pressupostos do Existencialismo: os cristãos e os ateus. De acordo com Sartre
Cristãos → Carl Jaspers (1883-1969) & Gabriel Marcel (1889-1973).
Ateus → Jean-Paul Sartre (1905-1980), Martin Heidegger (1889-1976) [?] & Albert Camus (1913-1960) [?].
Discussão Prévia: Três questões introdutórias:
(a) Como viver sem liberdade? (b) O que é liberdade? (c) Quais os limites da liberdade?
(a) Todos querem viver em liberdade; vida e liberdade se confundem & a luta pela liberdade vale a própria vida.
(b) É a capacidade de escolha entre duas ou mais alternativas.
(c) Existem limites à liberdade e eles têm de ser considerados.
Liberdade Para o Existencialismo: Capacidade humana em dizer “não”. Capacidade humana em determinar o objeto de sua escolha.

O seguinte “diagrama” pretende explicar a dinâmica da liberdade na concepção existencialista:

Liberdade: Poder Negar. Poder Transcender.→ Ação: Por Princípio Intencional. → Escolha 2ª. Escolha entre dois ou mais móbeis. → Móbil: Motivo

↓                                                          ↓

 

Consciência posicional, reflexiva.           Escolha 1ª. No movimento da vontade a escolha dos móbeis já foi feita.

            ↑

Consciência não-posicional e não-reflexiva.

                         ↑                                                                                                                  ↑

Ao considerar a liberdade tomamos a escolha 2ª pela escolha 1ª, devido seu estatuto de consciência. Mas, lembremos que a 2ª não é posterior à primeira, antes é seu prolongamento, como um fluxo contínuo e indissociável.

 

 

BIBLIOGRAFIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo. Martins Fontes. 1999.
CURVILLIER, Arrmand. Pequeno Vocabulário Filosófico. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 1976
MOUTINHO, Luiz Damon S. Sartre – Existencialismo e Liberdade. In: Coleção Logos. São Paulo. Editora Moderna. 1995
SARTRE, Jean-Paul (FERREIRA, Virgílio.). O Existencialismo é Um Humanismo. Lisboa – Portugal. Editorial Presença. 1970.
_______________. O Ser e o Nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis, RJ. Editora Vozes. 1997.

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Por que Crescem os evangélicos? Diagnóstico da Agonia do Cristianismo em Meio ao Crescimento Vertiginoso do Evangelicalismo.

maio 13, 2011 at 11:42 pm (Religiosidade & Sociedade) (, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , )

  

A Agonia do Cristianismo

 

 Introdução.

 

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil tem suscitado muitas análises, questionamentos e especulações e este crescimento é verdadeiramente um fenômeno social – e religioso – sem precedentes na história de nossa nação, embora a presença evangélica em nossas paragensseja de, aproximadamente, dois séculos, o advento de uma forma específica de anuncio e práxis evangélica detonou o crescimento vertiginoso na cifra daqueles que compõem esse movimento: o pentecostalismo, e, mais recentemente o neopentecostalismo.

 

  1. Definindo os termos.

 

Para um bom começo necessitaremos de algumas definições que nos auxiliem a compreender em que sentido são usadas às nomenclaturas relativas aos movimentos e grupos. Há muita confusão e ambigüidade no falar cotidiano acerca de termos como: protestantes, evangélicos, pentecostais, carismáticos e neopentecostais.

 

A nomenclatura Protestantismo é comumente aplicada a todos os grupos oriundos da Reforma deflagrada por Martinho Lutero (1483-1546) no século XVI,desta forma aplica-se o substantivo protestante desde luteranos até aos mais extremados pentecostais. Todavia, destaquemos que um uso rigoroso deste termo exigiria sua aplicação especificamente aos luteranos, posto que, assim foram designados os príncipes luteranos que protestaram ante a decisão da Igreja Católica Apostólica Romana na Dieta de Speier em 15291.

 

Seguiremos aqui o uso corrente de aplicação da expressão protestantismo histórico – ou simplesmente históricos – em referência a denominações como: luteranos, presbiterianos, anglicanos, batistas e metodistas, distinguindo-os dos pentecostais e neopentecostais, é bom que observemos o fato de que geralmente a expressão movimentoevangélico abarca, especificamente, o conjunto dos pentecostais e neopentecostais.

 

O Pentecostalismo – com as características com as quais se apresenta hodiernamente2 – é um fenômeno recente, sua origem remonta ao início do século passado e sua chegada ao Brasil ocorreu em 1910 – Congregação Cristã no Brasil – e em 1911 – Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Sua principal característica é a crença na contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, com ênfase no dom do falar em línguas – glossolalia – os pentecostais destacam-se, também, por enfatizarem seus usos e costumes que, segundo crêem, os distinguem como servos de Deus, tanto dos não cristãos, quanto dos integrantes dos grupos históricos e neopentecostais; o aparente ponto de unidade entre os pentecostais e os históricos parece ser a aceitação de, ao menos, três dos cinco princípios reformados propostos por Martinho Lutero, conhecidos como sola – lat. Somente sola Scriptura, sola fide, sola gratia, solus Christos, e, soli Deo gloria3.

 

O Neopentecostalismo lança raízes, aproximadamente, nos fins da década 70. A fundação da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) pode ser considerada como o marco inicial deste movimento. Junto à Igreja Universal algumas denominações neopentecostais mais proeminentes são: a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) – cuja origem está intimamente ligada à Universal – a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1976) e a Renascer em Cristo (1986). Estas igrejas são caracterizadas por sua ênfase naquilo que eles consideram Batalha Espiritual – em que os crentes têm de enfrentar Satanás e seus representantes: dentre os quais contam o catolicismo e todas as religiões não cristãs, além dos demônios causadores de doenças, vícios e toda miséria humana. A pregação da Teologia da Prosperidade – também chamada de Confissão Positiva – que advoga a crença de que a prosperidade material, a saúde física e vitória, em todos os setores, são indícios da benção de Deus na vida do verdadeiro cristão e que a não participação nestes elementos indicam, senão uma vida não transformada por Deus – que é o caso do não cristão –, ao menos, um estado de vida pecaminoso – neste caso o cristão que não consagra sua vida. Lembremos que os neopentecostais não adotam os usos e costumes dos pentecostais e tampouco tendem a se identificarem com o rigorismo dos históricos.

 

Uma palavra de ser dita acerca dos Carismáticos, muitas vezes confundidos com os pentecostais, os carismáticos são fruto de uma renovação – daí o epíteto Renovação Católica Carismática – cuja origem é datada em 1967, Pittsburgo, sob a influência direta de pentecostais alguns católicos receberam por imposição de mãos os dons – carismas – do Espírito Santo e a partir daí – mesmo sob fortes reações contrárias – o movimento espalhou-se pelo mundo, fortalecendo-se sobremodo nos países da América Latina. René Laurentin assim descreve esse movimento.

 

Surgiu, assim, em 20 de janeiro de 1967, pela oração e imposição das mãos sobre os dois primeiros fundadores, o que foi chamado desde o início Pentecostalismo católico: uma conversão, uma libertação de forças vivas, um repentino florescimento de carismas esquecidos na igreja Católica, a começar pelo carisma de falar em línguas, característico do Pentecostalismo, como também o profetismo (no sentido de palavras inspiradas, ditas em nome de Deus), o dom de curas, etc.

 

(Laurentin, 1981, p. 40)

 

 

 

Os carismáticos mantêm muitas semelhanças com o pentecostalismo no que tange à teologia pneumatológica – ou antes, paracletológica4porém, ainda são fundamentalmente católicos e por isso, hoje, têm uma convivência pacífica e muito engajada no seio da Igreja Católica, sendo responsáveis por uma retomada no crescimento desta instituição que há muito vinha perdendo fiéis para outras manifestações de espiritualidade cristãs e mesmo não cristãs!

 

  1. Diagnóstico do crescimento – seus motivos internos.

 

Na vivência comunitária do evangelicalismo brasileiro podemos distinguir duas atitudes básicas, aquela atinente aos integrantes do grupo histórico e a outra atinente ao grupo pentecostal, do qual, em certo sentido, partilham os neopentecostais com suas devidas diferenças. Os históricos põem a ênfase na experiência do novo nascimento que se evidencia por meio de uma transformação do comportamento do individuo no seio da sociedade em que se insere; não é exagero dizer que sua preocupação central caracteriza-se num rigorismo moral que busca inspiração na mais típica representação evangélica dos Revivals – anglo-europeus – dos séculos XVII e XVIII.

 

O Pentecostalismo – e o neopentecostalismo – põem ênfase em experiências de cunho sobrenatural, curas e expulsões de demônios, e, também na concretização material – financeira – da benção espiritual na vida do cristão, isso em especial entre os neopentecostais, portanto, o perfil socioeconômico de seu público é relativamente diferente daquele que é cativado pelo dos históricos. A identificação do perfil socioeconômico dos aderentes de ambos os grupos é útil, também, como identificação de quais os indivíduos são mais suscetíveis a um ou outro tipo de mensagem, a faixa etária, a formação escolar – acadêmica – o sexo e etnia são indicadores relativamente seguros da capacidade de alcance, quer dos históricos, quer dos pentecostais5.

 

Para a grande maioria dos brasileiros a mensagem pentecostal é mais atraente que aquela anunciada pelos históricos, pois apela para um elemento supranatural a ação poderosa dos carismas sobre a igreja; afinal a reforma moral, ponto forte do protestantismo histórico, não exerce tanta atração sobre as massas, já que há uma idéia amplamente difundida – sensus comunis – de que basta apenas um pouco de esforço pessoal para que se tenha uma conduta moral, senão irrepreensível, ao menos pouco reprovável; não se faz necessário buscar o auxílio divino para coisas que podemos alcançar por nós mesmos – essa atitude é exemplificada através do ditado: “Deus não fará por você, aquilo que você mesmo pode fazer”.

 

Porém, curas miraculosas, libertação de opressões demoníacas, e (ou) o “abrir as janelas dos céus” em toda sorte de bênçãos e prosperidade material é algo que somente Deus pode fazer, e, o faz na igreja através do Espírito Santo, poder pentecostal que atua sobre os fiéis.

 

É possível fazer um diagnóstico essencial do núcleo do poder atrativo do movimento evangélico brasileiro?

 

Postulamos esta possibilidade, todavia, ressaltamos que este será um diagnóstico preliminar, e, sempre relativo em suas conclusões, suscetível às influencias características do devir histórico.

 

Até o presente momento, em essência, o poder atrativo da mensagem do movimento evangélico brasileiro está na promessa de resolução dos problemas imediatos do homem – pentecostais e neopentecostais – e (ou) na garantia de que o homem pode de alguma forma se apresentar justo diante de Deus e contribuir com Ele em sua salvação6, analogamente à salvação do mundo – protestantismo histórico – e isso no cumprimento de exigências morais que são extraídas de interpretações da Bíblia, muitas vezes, questionáveis por estarem sobrecarregadas de séculos de tradições confessionais marcadas por suas respectivas ideologias.

 

Na verdade o que se pode contemplar na atitude evangélica contemporânea é que o cristão segue “ajudando Deus a lhe ajudar7” e nada é mais estranho ao espírito do Evangelho do que essa atitude. Pois, o foro mais íntimo do kerygma cristão é aquele expresso na síntese incomparavelmente aguda de Edith Stein (1891-1942)8 ao observar que: “Não é atividade humana que nos salva, mas somente a paixão de Cristo”.

 

O que tem sido deixado de lado é a noção de que o comportamento cristão com relação às coisas que de modo geral se inserem no âmbito do que consideramos atividades mundanas, se distingue pela temperança, no sentido de atuar neste âmbito na medida certa9; não é uma questão de “ser ou não ser” salvo na medida em que “fazemos ou não fazemos algo”, nossa vivência cristã é marcada pelo movimento paradoxal em que mesmo nossas obras são operadas em nós – Filipenses 2.13 –, no sentido de sermos mobilizados por Deus no mais íntimo de nossa vontade, como bem salientou C. S. Lewis:

 

Fazemos o que Ele nos pede, não porque nossa salvação depende disso, mas por que Ele já começou a salvar-nos. Comportamo-nos inevitavelmente de certa maneira, não tanto porque esperamos o Céu como recompensa das nossas ações, mas porque o Céu já começou a resplandecer dentro de nós.

 

(Lewis, 1997, p. 151)

 

Talvez, seja essa consciência aguda que falte aos históricos, e, é por isso que podemos dizer que o evangelicalismo tem feito um “braço de ferro” com Deus, os históricos com a força de seu moralismo e os pentecostais com a força dos “milagres”, cada um joga com aquilo em que tem mais “competência”. Mas, o que não percebem é que não podem – verdadeiramente – forçar a Deus, lembrando as palavras de um dos personagens de C. S. Lewis – “As Crônicas de Nárnia” – acerca de Aslam: “Ele não é um Leão domesticável”!

 

  1. Conseqüências da inversão valorativa e práxica no seio do evangelicalismo brasileiro.

 

O comportamento do evangelicalismo brasileiro se constitui numa inversão tanto dos valores, quanto da práxis cristã, e, suas conseqüências são patentes a qualquer observador atento: o evangelicalismo reproduz – de modo um tanto dissimulado – o mesmo esquema funcional da sociedade civil, capitalista e midiática; ele ignora o apelo do apóstolo – Rm. 12.1. – e se conforma ao mundo.

 

Ao olharmos o movimento evangélico brasileiro vemos uma legitima representação da Igreja que segundo crêem foi instituída por Cristo?

 

Em hipótese alguma! Não vemos no movimento evangélico uma igreja inclusiva, mas, sim uma igreja que exclui, uma igreja que discrimina, marginaliza e age, muitas vezes, de forma preconceituosa para com aqueles que não integram sua comunidade, ou, que dela discordam.

 

Vemos no movimento evangélico brasileiro um potencial muito belo para auxiliar os carentes e amparar os fracos, mas, não vemos efetividade neste aspecto, infelizmente vemos o efeito placebo, a concessão de respostas prontas e de regras determinadas de conduta para aqueles que não encontram por si mesmos, e isso devido os mais diversos fatores, as respostas que lhes cabem enquanto individualidades – socialmente inseridas – e o ethos relativo ao caráter autônomo de sua existência enquanto seres dotados de razão.

 

Aliás, é o exercício da razão que conhece a Deus por meio da fé que se constitui num culto agradável a Deus – Rm. 12.1 – e não a atitude de ignorância, de falta de conhecimento, atitude pela qual o povo de Deus perece – Os. 4.6.

 

Uma das mais nefastas conseqüências deste estado anômalo engendrado no seio do movimento evangélico é a perseguição explicita ou mesmo velada àqueles que ousam pensar de modo autônomo colocando em questão o sistema vigente. Pois é certo que há cabeças pensantes entre os evangélicos, e, é certo que estes denunciam a situação e a identificam com o pecado, como algo alienante, como desvio da verdade, tanto teológica, quanto prática – cristã. Porém, após certo período de admiração – ou entusiasmo – devido à novidade de sua mensagem, são tidos como mensageiros incômodos e inconvenientes, e, se tornam como ilhas – poderíamos dizer paradisíacas – no oceano de confusão religiosa onde prevalece o orgulho denominacional, a jactância atinente à sua tradição teológica e o fascínio das mega-construções: templosde consumo onde o preço é a própria fé, e, a graça – tomando a expressão de Bonhoeffer (1906-1945) – é transformada em uma graça barata!

 

Significa isso que todos os fiéis que integram o rol das igrejas evangélicas brasileiras estão errados? Estão estes fiéis apenas dissimulando?

 

Convém, dizer esta palavra acerca dos fiéis: não duvidamos de sua sinceridade, muitos têm uma fé viva, poderosa e bem nutrida, oriunda de um relacionamento pessoal com o Deus em que crêem e a quem se entregam, pois este relacionamento se estabelece na interioridade de cada um – mesmo considerando que seu fruto nos seja visível apenas na exterioridade de uma vida socialmente (ou comunitariamente) manifesta. Logo, não julgamos acerca de seu acerto ou de seu erro, mas, nos cabe a possibilidade de fazer um pronunciamento acerca daqueles que estando amadurecidos no âmbito do que se considera “espiritualidade cristã” – como se conhecêssemos outra espiritualidade que não seja a humana – contemplam a situação em que se encontram as diversas denominações evangélicas, inclusive aquelas a que pertencem, e não ousam se pronunciar, não têm a coragem de se postar diante de seus pares e de lhes alertar o quão distantes estão da verdade e da vida cristã.

 

Talvez, isso se deva à nossa tendência natural em evitar confrontos, mesmo sabendo que nosso silêncio se constitui numa hipócrita conivência com o erro, às vezes temos de pagar o preço por dizer a verdade – temos na fé um exemplo desta atitude, Cristo Jesus; e na razão, aquele do próprio Sócrates.

 

É certo uma ousadia e este termo nos remete a Kierkegaard (1813-1855) um cristão que denunciou as mazelas da cristandade de sua pátria, e, de sua época, tendo sofrido por isso. Ele teve a coragem em dizer a verdade e por este motivo as suas palavras nos servem de alerta. “Ousar é perder o equilíbrio por um instante, mas não ousar é perder-se a si mesmo”.

 

 

 

Bibliografia

 

AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo: A Formação do Pensamento Batista Brasileiro. Piracicaba / São Paulo. Editora Unimep. 1996.

 

BOICE, James Montegomery e Outros. Reforma Hoje – Uma Convocação Feita Pelos Cristãos Confessionais. São Paulo. Editora Cultura Cristã. 1ª Edição. 1999.

 

LAURENTIN, René. A Renovação Carismática: Renovação Profética ou Neoconservadorismo? In: Concilium/161: O Neoconservadorismo – Um fenômeno Social e Religioso. Gergory Baum (Ed.). Petrópolis / Rio de Janeiro. Editora Vozes Ltda. 1981.

 

1 Vide. A exposição de Israel Belo Azevedo no capítulo 1º de sua pela obra: “A Celebração do Indivíduo”.

 

2 Fazemos esta observação tendo em conta a opinião de que o Pentecostalismo tem seus antecedentes no movimento dos quakers – tremedores – facção cristã do século XVII conhecida por seu comportamento frenético e por seus violentos êxtases dentre outras manifestações tidas como carismas divinos.

 

3“Somente a Escritura, Somente a Fé, Somente a Graça, Somente, Cristo e Somente a Deus toda glória”.

 

4 O primeiro termo se refere à reflexão teológica acerca do espíritoPneuma – e o segundo é mais especificamente relativo à reflexão teológica acerca do Espírito Santo, também chamado na s Escrituras pelo título de Paráclito, algo como Ajudador, Auxiliador, ou simplesmente Advogado (cf. Jo. 14.15, 26; 16. 7).

 

5Para uma análise mais específica deste aspecto remeto ao estudo de Ricardo Mariano “Estudos Avançados Dossiê Religiões No Brasil. Expansão Pentecostal No Brasil: O Caso da Igreja Universal.” In: Estudos Avançados. Vol. 18. Nº 52. São Paulo, Set./Dez. 2004

 

6 Naturalmente este não é dado constitutivo de seu discurso, certamente os evangélicos me objetarão dizendo ser artigo inerente de sua fé a total incapacidade do homem em salvar-se por si mesmo ou de contribuir com Deus em sua salvação, e, reconhecemos a verdade desta afirmação. Todavia, é necessário que distingamos entre o que é inerente ao plano discursivo e aquilo que constitui a vivência prática no evangelicalismo brasileiro, sua vivência prática nega aquilo que o discurso afirma, ousamos a afirmar que neste fenômeno se nos apresenta um dilema, ou a vivência não é conseqüente com a afirmação de sua crença; ou a crença – verdadeira; aquela relativa ao mundo interior do fiel – é aquilo que se manifesta no plano da vida prática, e, não aquilo que é expresso por eles no plano discursivo, seja qual for à alternativa, o problema da autenticidade da vivência cristã estará seriamente comprometido e cabe ao cristão posicionar-se criticamente ante a situação com o intuito de encontrar-se novamente na vivência saudável da fé no Filho de Deus, Jesus o Cristo – Ap 2.5..

 

7 Devo esta expressão a James Montgomery Boice em seu prefácio de Reforma Hoje (1999) indicação bibliográfica completa Bibliografia.

 

8Edith Stein, jovem, judia, filósofa, discípula do grande filósofo Edmund Husserl (1859-1938), ela converteu-se ao catolicismo, aderindo à vida numa ordem religiosa (Carmelo de Colônia,1934) sob o nome religioso de Irmã Teresa Bendita da Cruz. Mesmo após sua inserção na vida religiosa foi feita prisioneira pelo Regime Nacional-Socialista – Nazismo – em sua cruel perseguição aos judeus, e, foi executada no Campo de Concentração de Westerbork em 1942.

 

9 Lembremos do lema dos dominicanos in medio stat virtusa virtude está no meio termo – que tem como fonte a metaxý platônica e a mesothés aristotélica.

 

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Vazio – O Espaço Reflexivo Entre o Taoísmo e o Cristianismo.

janeiro 26, 2011 at 6:22 pm (Uncategorized) (, , , , , , , , , , )

Para um bom começo.

É notória a importância do Vazio nas tradições do Oriente, sobretudo no BudismoMahayana Sunya[1]. No Ocidente não nos importamos muito com esse tema, posto que expressa uma negatividade que justifica a atitude de que se trata “do que não temos o que falar”. Noutras palavras, não se fala do vazio, assim como não se fala do nada, com raríssimas exceções como Pseudo-Dionisio, o Aeropagita (c.490); Meister Eckhart (1260-1327) ou Heidegger (1889-1976)!

Talvez, nossa atitude esteja marcada pela tradição judaico-cristã, ou, ao menos, por nossa compreensão parcial dela. Se o Cristianismo enfatiza o pleroma – gr. pleroma : plenitude, aquilo que enche; preenche. – portanto, uma superabundância de tudo – concentrada num único pólo: Cristo-Deus – ele também tem algo a nos ensinar sobre o vazio.

E é sobre isto que gostaríamos de convidar o leitor a refletir juntamente conosco, e, mais sobre a sutil convergência da tradição oriental com a tradição cristã. Para tanto, tomemos um verso do Tão Te King como motivo inicial de nossa reflexão. 

O motivo.

Trinta raios em volta de um cubo:

No vazio central origina-se a valor da roda.

A argila é trabalhada na forma de vasos:

É pelo vazio que são vasos.

Abrem-se portas e janelas pra criar um quarto:

E é por esses vazios que é um quarto.

Desta forma, o que é serve para a utilidade,

O que não é representa a essência.

(Verso 11º)

Neste verso duas coisas são postas em relevo: forma e a vazio[2], e, respectivamente, ou antes, concomitantemente a utilidade e a essência. O verso não põe ambas em relação de oposição como princípios antagônicos, mas de complementaridade, não está opondo a forma ao vazio, ou a utilidade à essência, mas destaca a relação sutil e, por vezes, paradoxal entre ambos.

Em uma primeira leitura aprendemos que a forma revela ou se presta à utilidade do objeto e que o vazio – enquanto característica necessária do objeto – revela sua essência, ou seja, revela o que realmente é o objeto. Se cada um dos objetos listados é identificável por sua forma: a roda, o vaso, o quarto, é o vazio neles que possibilita serem realmente o que sua forma nos diz que são, é o vazio central que possibilita aos raios convergidos no cubo a constituírem uma roda; é o vazio central no molde da argila que possibilita o constitui-se em vaso e são os vazios – o esvaziamento – de determinados espaços na estrutura de alvenaria – ou outro material – que possibilita a constituição do quarto.

A partir deste ponto é possível descer um pouco mais em nossa exegese, e aprofundar o significado dos versos; numa segunda leitura apreendemos que toda realidade, sim a realidade que nos cerca e da qual somo participes, se constitui de dois pólos, sendo um visível e imediato e o outro invisível e mediato, é no vazio essencial das coisas que elas se constituem no que são; mas é na manifestação fenomênica que elas se realizam no plano da concreção; é certo que não é difícil falar desta forma em nossos dias – dias da astrofísica e da mecânica quântica – em que o infinitamente grande e o infinitamente pequeno são minuciosamente investigados pelos nossos sentidos eletronicamente maximizados, mas em sua época de composição – cerca do século VI a.C. – Lao Tse certamente fora visionário e suas palavras enigmáticas para seus contemporâneos. Suas palavras nos dão uma noção de relação de mutua dependência entre os dois dados, que se calca sobre o tão conhecido principio do Yin e Yang.

O paradoxo suscitado por essa afirmação acerca da essência da realidade assemelha-se ao que nos propõe o autor da epístola aos Hebreus:

Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.

(Hb. 11.3 – o itálico é nosso).

Uma perspectiva cristã.

É necessário cautela ao tentar determinadas aproximações entre tradições espirituais diferentes, corremos o risco de simplificar o problema afirmando – mesmo sem querer – que religiões diferentes dizem exatamente a mesma coisa ou de distorcer as palavras – dos textos fundamentais destas tradições – fazendo com que elas digam o que nós queremos dizer e não o que elas realmente dizem.  Mesmo diante deste risco ousamos uma aproximação entre a proposta supra – aquela atinente ao Taoísmo – e a perspectiva cristã. 

O verso da epistola aos Hebreus, com o qual encerramos a secção anterior, é categórico ao dizer que aquilo que vemos não tem sua origem naquilo que não vemos, ou seja, o arkhé da realidade visível é em última instância um princípio invisível. Para o pensamento bíblico esse princípio é essencial, posto que Ele não apenas é a fonte de todas as coisas, bem como lhes confere sustentação – ainda em Hb. 1.3 – e não pode ser postulado separadamente da Palavra de Deus – o Logos Divino.

Bem, tomamos conhecimento desta verdade por meio de uma materialização deste logos, a palavra escrita, assim como os contemporâneos de Jesus tomaram conhecimento deste Logos de um modo mais palpável, ou seja, na relação com o próprio Logos Divino – personificado como o homem Jesus – segundo as palavras do apóstolo João:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida.

(I Jo.2.1)

Essa mesma revelação do Logos Divino é narrada pelo apóstolo no Evangelho, referimo-nos em especial ao prólogo do primeiro capítulo onde o tema da encarnação do Logos é exposto de modo mais minucioso.

A encarnação tem um propósito ela fora necessária para redenção da humanidade e foi suscitada pela graça divina – seguimos aqui Anselmo (1033-1109), Porque Deus se fez homem – mas, a propósito de sua realização, ou seja, da concretização do Logos Divino na corporificação e no próprio ato de assumir a natureza humana, temos nas palavras de São Paulo a enunciação do ato de esvaziamento do Logos evocado por meio de um hino litúrgico da comunidade cristã.

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,

Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;

E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

Por isso, também deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo nome;

Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,

E, toda língua confesse que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

(Fp.2.5-11 – itálico- são nossos)

Temos a afirmação do esvaziamento – gr. eknosen –  idéia sobre a qual se desenvolveram as principais teologias kenóticas, e das quais podemos haurir, ao menos, três teses básicas acerca do estado do Logos em esvaziamento:

1º) Ele voluntariamente encobriu Sua glória pré-encarnada. 2º) Ele voluntariamente assumiu a semelhança da carne durante o período em que viveu como homem. 3º) Ele fez o não-uso voluntário de alguns de Seus atributos divinos durante Seu ministério terreno.   

A estas três teses podemos chegar caminhando junto à Teologia Cristã – sobretudo aquelas desenvolvidas no seio das comunidades gregas nos III e IV séculos – mas, o que nos propõe o tema do vazio, conforme as diretrizes assumidas no inicio, ainda acrescenta mais um elemento: exatamente aquilo de que Ele se esvaziou é o que revelava sua essência, não que Ele tenha de ser Deus, mas, que seu esvaziamento mostrou-nos aquilo que em primeira instância não era reconhecido como o Divino, mas sim como humano – embora, sem ter deixado de ser sempre o Divino – e aqui reside à possibilidade de vislumbrar a convergência, havia na forma de servo, na semelhança de homem uma função determinada – uma utilidade – e essa se prestaria a redenção da humanidade, mas no seu esvaziamento, para não dizer no seu vazio – aquilo que fora mais especificamente revelada, sua essência – não havia contradição entre os dois havia complementaridade, pois a redenção – a utilidade – necessitava de um sacrifício humano, e a dignidade o ofendido, de um sacrifício divino. Portanto, não dois sacrifícios, mas um que unisse em si as duas prerrogativas, que fosse pleno de divindade mesmo em estado de esvaziamento: Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. (Cl.2.9).

Conclusão.

As duas tradições são diferentes, mas a afirmação simbólica de ambas aponta determinados temas que podem ser pensados em comum, e, que talvez, expressem verdades comuns. O Cristianismo necessita pensar o quão valiosa é a postura de esvaziamento ante um mundo que quer nos encher com tudo aquilo que é contrário o que realmente queremos e deveríamos ser; tudo aquilo que fere nossas autodeterminações livres e racionalmente escolhidas.  Pois, mesmo o homem necessita de um esvaziamento sempre e constante para ser o que realmente é!   

Bibliografia.

TSE, Lao. – Tao Te King – O Livro do Sentido da Vida. São Paulo. Editora Hemus, S/D.

TSE, Lao. – Tao Te King . In: Yutang, Lin – A Sabedoria da China e da Índia (Volume II). Rio de Janeiro. Irmãos Pongetti Editores, S/D.

Bíblia Sagrada – Tradução: João Ferreira de Almeida. São Paulo. Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 1994.


[1] O Taoísmo desenvolveu o tema acerca do vazio de modo muito acurado, sobretudo, nos escritos sobre o t’ai-hsi = O Grande Vazio.

[2] Poderíamos dizer também o existente e o não-existente, conforme consta na tradução de Norberto de Paula Lima – Editora Hemus; Vide Bibliografia – todavia, adotamos a primeira forma para evitar possíveis equívocos. 

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CLEMENTE DE ALEXANDRIA E O DIÁLOGO ENTRE A FILOSOFIA GREGA E A MENSAGEM CRIS†Ã

janeiro 18, 2011 at 7:38 pm (Patrística) (, , , , , , , , , , , )

 Clemente de Alexandria

"Clemente de Alexandri - precursor do diálogo entre o Kerygma e a Filosofia Grega"

Nascido em solo semita o Cristianismo, logo, rumou ao encontro do mundo, à experiência de contato com diferentes culturas e diferentes tradições espirituais. Não se abriu com facilidade, antes, teve momentos de recolhimento e timidez ante o desconhecido, o alheio, o outro. Na Antiguidade, uma nova fé não gozava de muita simpatia, o tradicional era visto como um porto seguro, como garantia de estabilidade, o inovador, o revolucionário, como elemento desestabilizador da sociedade. A multiplicidade expressa na possibilidade de veneração à diversas divindades, parecia estar na base cosmopolitismo e da salutis espiritualis de seus cidadãos, e, exatamente essa possibilidade era a que mais se opunha ao monoteísmo cristão herdado de sua judeidade. Deduzimos disto, que a fé cristã não tinha as melhores prerrogativas em tornar-se, aquilo que chamamos hoje, religião mundial. Talvez, estivesse fadada ao recolhimento, ou quem sabe até, ao esquecimento.

Mas, o kosmos intimidador não pode barrar o avanço desta nova fé, o encontro de São Paulo com os filósofos gregos, narrado por Lucas, no Areópago (At.17.15-34) é paradigmático; de alguma forma, o narrador intui que neste encontro estaria decidido o futuro da nova fé, alguns enfatizam que não houve conversões dos filósofos, mas houve de Dionisio, sua mulher Dâmaris e outros (v.34), e, isso é importante para quem considera que mais vale uma alma do que todos os tesouros do mundo. Porém, não é essa a preocupação central, que nos faz remeter àquela passagem, é antes, a importância da cidade onde se dá o episódio, Atenas, a capital cultural e intelectual da Grécia Clássica, o local, onde ele prega seu sermão, o Areópago, o público a que se dirige, os filósofos estoicos e epicuristas e a divindade que lhes anuncia O Deus Desconhecido (Agnostos Theos), suas citações de Arato, Epimedes, e, provavelmente, Platão, serão sempre recordadas por todos aqueles que se ponham a pensar a relação entre a fé cristã e a filosofia grega. Jaeger advoga que:

Quer esta cena inesquecível seja histórica quer tenha pretendido dramatizar a situação histórica da luta intelectual que se inicia entre o Cristianismo e o mundo clássico, a encenação revela claramente de que modo o autor dos Actos a entendia,. Esta discussão requeria uma base comum, sem o que não seria possível qualquer discussão. Paulo escolheu a tradição filosófica grega, que constituía a parte mais representativa do que estava vivo na cultura grega na altura.

(Jaeger, 1991,pp.25-25)

Os gregos nos legaram problemas, o kerygma cristão nos propõe respostas, nascidos em berços distintos e marcados por diferentes modos de ver o mundo, diferentes cosmovisões, ambas,a cultura dos helenos e a tradição dos semitas se constituíram como os matizes fundamentais da Civilização Ocidental.

Como se deu o encontro destas duas visões de mundo? Como foi possível conciliar a Filosofia grega a mensagem cristã, de modo, a lançar os alicerces para nossa civilização? De modo que, uma disciplina, a Teologia, fosse engendrada pela Filosofia, e posteriormente rechaçada por sua cria? Quais os fatores possibilitaram um exercício hermenêutico que desse conta de ler Platão, Aristóteles, o Médio e Neo Platonismo e as Escrituras Cristãs, todos sob mesmo olhar ? Como foi possível a Clemente de Alexandria, no século III lançar as bases para uma hermenêutica “científica”, para a formação da Teologia cristã e também a antecipar os principais motivos filosóficos que dariam suporte para os futuros dogmas cristãos?

A conjuntura do mundo greco-romano nos meados do século II é decorrente de toda uma amalgama de fatores deflagrados a partir da helenização da Ásia e da Palestina, e, isso através das conquistas de Alexandre, Magno. Os extratos da própria cultura e tradição hebraicas somados aos ideais da Paidéia grega, convergindo na cidade portuária de Alexandria, no Egito; mais a numerosa comunidade de judeus da Diáspora, há muito falantes do grego, e habituados às tradições gregas, reunidos naquela cidade. A vitalidade da jovem Igreja Cristã em sua atividade missionária entre os judeus e prosélitos. E ainda, a efervescência das espiritualidades do Oriente que eram importadas a tudo mundo greco-romano, e que encontrava ali um estado de ansiedade e tensão, onde as instituições e os poderes pareciam entrar em colapso após o declínio da Magna Hélade e a perda de equilíbrio do próprio Império Romano que tivera um início tão imponente. As condições e as possibilidades especulativas incitadas e exercidas pelos gnósticos , de todos os gêneros: barbelo-gnósticos; carpocratas; sethianos; valentianos; marcionitas; basilidianos; cerinthianos, para citar apenas os mais notórios, e mesmo a reação que deu origem ao, que mais tarde, foi considerado ensino Ortodoxo, através dos Padres Apostólicos e Apologistas. São, o terreno e as condições nas quais, Clemente exercitará sua hermenêutica e desenvolverá sua Teologia, ou antes, sua Filosofia Cristã, que ele denominará, verdadeira Filosofia, ou mesmo, a verdadeira Gnose!

Nossa pesquisa é uma incursão neste universo, uma inquirição dos limites e intersecções possíveis entre o sagrado e o profano, ou ainda, na dimensão em que o profano é sacralizado, onde ele mostra sua face sagrada, onde o pensar é reconhecido como uma atividade da vida do espírito, assim como pensavam os gregos, mais notadamente a partir de Platão. Onde o vinho da Palavra de Deus é misturado com a água da Filosofia Grega, por causa de nossa freqüente enfermidade (I Tm. 5.23), ou ainda, onde a água da Filosofia Grega é transformada em vinho da Palavra de Deus para que nossa alegria seja duradoura (Jo.2:1-12).

Nosso estudo segue um plano tripartido, na Primeira Parte nos ocupamos dos fatores que possibilitaram o exercício hermenêutico e filosófico dos Padres Gregos, destacando a função de Alexandria como centro cultural da Antiguidade tardia, os fatores oriundos da Paidéia grega, os fatores oriundos da tradição hebraica, o advento de Cristo, Jesus e as especulações gnósticas. No segundo momento, nos detemos na pessoa de Clemente, vida e obra, fazendo uma exposição sumária de sua obra e destacando qual o problema filosófico com o qual se ocupa seu pensamento. E no terceiro e último momento, nos debruçamos, de modo mais específico, sobre a obra de Clemente, Stromata, e buscamos explicitar o ideal do filósofo cristão segundo o alexandrino, apontando a atração exercida sobre ele pela filosofia grega; quais as convergências básicas entre a Filosofia Grega e a mensagem cristã, segundo seus escritos; sua hermenêutica, caracteristicamente alegórica, serve ao objetivo conciliatório proposto por Clemente e, por fim, apontamos os desdobramentos hermenêuticos que se configuram na obra de Orígenes, a partir daquilo que edificou Clemente.

Carlos Eduardo Bernardo.

Bibliografia.

JAEGER, Werner. Cristianismo Primitivo e Paidéia Grega. Edições 70, Lisboa/Portugal, 1991.

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