Sobre a Não-Estaticidade da Verdade.

 

A origem significa aqui aquilo a partir do qual e através do qual uma coisa é o que é, e como é. Ao que uma coisa é como é, chamamos a sua essência.

(Heidegger, 1997, p. 11)

Heidegger inicia sua reflexão sobre a obra de arte, com uma pergunta: qual é a origem da obra de arte?

Se tomarmos o termo ‘origem’ como sinônimo de “essência”, a pergunta assim se configuraria: qual é a essência da obra de arte?

Heidegger, porém é mais preciso e nos diz que essa é a pergunta sobre a ‘proveniência essencial’ da obra de arte.

Considerando que a ‘essência’ (das wesen) é uma palavra dotada de certa polissemia, nos atenhamos apenas ao fato que ela carrega em si um sentido de ‘movimento’, conforme destaca Emmanuel Carneiro Leão, ao discorrer sobre a Introdução à Metafísica (1966):

[…] o verbo ‘Wesen’ – arcaico em alemão – é pouco usado, tem o sentido de movimento – dinâmica (p. 152).

Daí sua preferência, em Heidegger, onde a ‘essencialização’ (ou o ‘essencializar-se’) se mostra como um constante fazer-se no seio do real. Por isso perguntar pela essência da obra de arte é perguntar o que faz a arte ser o que ela (tal como ela é), perguntar por sua proveniência essencial (1997, p. 11). É, enfim, perguntar transcendendo os limites da Estética, pela verdade da (e na) obra de arte!

Neste ponto parece haver uma convergência como aquilo que é dito por Heidegger, em “Sobre a Essência da Verdade” (1943). Senão uma (con)-vergência, ao menos uma relação, pois ele nos propõe a pergunta sobre ‘a verdade enquanto tal’, ou seja, sobre o que faz com que ela seja o que é, e como ela é.

Trata-se da essência da verdade. A pergunta pela essência da verdade não se preocupa com o fato de a verdade ser a verdade da experiência prática da vida ou da conjetura no campo econômico, a verdade de uma reflexão técnica ou de uma prudência política; ou, mais especificamente, com o fato de a verdade da pesquisa científica ou da criação artística, ou mesmo a verdade de uma meditação filosófica ou de uma fé religiosa. A pergunta pela essência se afasta de tudo isto e dirige seu olhar para aquilo que unicamente caracteriza toda “verdade” enquanto tal.

(Heidegger, 1983, p.131)

Sua pergunta se dirige à essência da verdade e não às suas múltiplas manifestações nos entes, estas podem ser (e devem ser) descobertas pelas diversas ciências, mas não aquilo que lhe é mais essencial. Mario Carneiro Leão lembra que:

[…] ente é um substantivo erudito, derivado do latim, “ens, entis”, particípio presente do verbo, “esse” (= ser). A forma originária era “sens”, conservada ainda em “prae-sens, ab-sens” e talvez também em “con-sens”. Em português o verbo, ser, é defectivo no particípio presente. […] Mesmo na filosofia até Heidegger, a distinção entre ente e ser não era rigorosa.  No texto, ente (Seiendes) significa tudo aquilo que simplesmente é, indiferente a seu modo próprio de ser. Assim o homem, as coisas, os acontecimentos, as ideias, tudo, até o Nada, enquanto é um Nada, são entes.

(Heidegger, 1966, pp. 95-96)

espiral
A busca pela Verdade, na perspectiva heideggeriana, é uma busca espiralada.

A verdade nos entes está fora desta perspectiva, posto que a pergunta refere-se à verdade que possuí certo sentido de “não-estaticidade”, ela é um fazer-se constante, mas não um fazer-se isolado ou além-mundo, ela é uma elaboração intramundana, fruto de um trabalho, assim como a obra de arte, no qual o ente homem deixa, por sua liberdade, surgir o Ser nos entes.

Portanto, ambas as perguntas: sobre a essência da obra de arte e sobre a essência da verdade; convergem, no final, no movimento da (des-)ocultação do ser, que possível na dimensão do ente homem o único ser dotado de liberdade para acolhê-lo, posto que, como diz Heidegger: “A ek-sistência enraizada na verdade como liberdade é a ex-posição ao caráter desvelado do ente como tal”. (Heidegger, 1983, p. 139).

REFERÊNCIAS BILBLIOGRÁFICAS.

HEIDEGGER, M. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Maria da Conceição Costa. Lisboa; Portugal, Edições 70, 1977.

HEIDEGGER, M. Sobre a Essência da Verdade. Tradução de Ernildo Stein, 2ª edição. In: Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1983.

HEIDEGGER, M. Introdução à Metafísica. Tradução Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro, Editora Tempo Brasileiro, 1966.

 

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