Do Tempo e Das Temporalidades na Perspectiva Cristã.

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Goya – Saturno – Recorte: O tempo devora seus filhos!

Apresento algumas de minhas anotações sobre o problema do Tempo e das Temporalidades na perspectiva cristã.

  • Chronos (Χρόνος) → Originalmente denota um “espaço de tempo” (Mt. 2,7; Lc. 4,5; 8, 27; 20,9; At. 20,18 e Rm. 16, 26). Acepção comum: quantitativo.
  • Kairós (καιρός) → Originalmente, “tempo oportuno, apropriado” também, “tempo fixo ou definido” (Rm. 5,6; Gl. 6,10; Lc. 18, 30; Mc. 10, 30). Acepção comum: qualitativo.
  • Hõra (ώρα) → Qualquer hora ou período fixo por natureza (Mt. 14,15; 18, 1; Mc. 6, 35).
  • Aiôn (Αἰών) → Palavra cujos significados são: “era, século, idade” (Ef. 3,11) “eterno” – “propósito das eras” (Tm. 1,17) – aiõnios (αἰώνιός) adjetivo (II Co. 4,18); substantivo (Fm. 15). Referente: Deus (R. 16, 26); ao Seu poder (I Tm. 6,16), à Sua glória (I Pe. 5,10), ao Espírito Santo (Hb. 9, 14), à redenção (Hb. 9,12), à salvação (Hb. 5,9), ao reino futuro (II Pe. 1,1); sem fim (Lc. 1,33).

Em minha abordagem sobre o problema da temporalidade, na perspectiva cristã, sou tributário, por um lado, a Oscar Cullmann (1902-1999), mas, por outro, e, principalmente, a Paul Tillich (1886-1965).

Para Tillich, a emergência de aiones no chronos é o movimento kairótico, ou seja, no encontro de aiones com o chronos se dá a eclosão do kairós, este último como o “tempo oportuno” (de certa forma, categoria comumente chamada na tradição cristã de o “tempo de Deus”).

Duas categorias teológicas de Paul Tillich:

  • Grande Kairós → o centro da história (a manifestação histórica do cristo).
  • Karoi → manifestação do Reino de Deus nas igrejas e também nos movimentos preparatórios do kairós.

 

A emergência de aiones no chronos (chamada por Tillich: movimento

Dali, Recorte, A persistência da Memória.

Dali, Recorte, A persistência da Memória.

kairótico) é o encontro entre a “eternidade” e o “tempo comum”, é como se o “Oceano invadisse a gota d’água”, O EternoDeus entrasse no mundo temporal. É o fazer-se do kairós, que os gregos chamavam o “tempo oportuno”.  Talvez, essa seja a razão pela qual o Novo Testamento, o evento da encarnação de Jesus é chamado a “plenitude do tempo” (gr. πληρωμα του χρονου – pleroma tou chronou), Gl. 4, 4.

Um Estudo No Evangelho de São João. Apresentação Geral.

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primeira página do evangelho de São João. Papiro P66, séculoII

Primeira página do evangelho de São João. Papiro P66, século II

Meu percurso de estudo minucioso das Escrituras Sagradas da fé cristã se estende já por alguns anos. O escrito Aos Hebreus tem sido estudado por mim, versículo por versículo, a partir dos textos gregos, há cerca de três anos – sendo que hoje me encontro no capítulo dez (10), noutro momento realizei uma leitura detalhada da Terceira Epístola de São João. Naturalmente de forma esporádica debruço-me sobre outras porções das Escrituras, mas atividade acima tem como objetivo o compartilhamento e a discussão em grupos de estudo que tenho promovido.

A iniciativa em tomar agora o Evangelho de São João é fruto de uma ocupação que sempre esteve em meu horizonte reflexivo, mas que agora parece ter amadurecido ao ponto de tornar-se realidade; não significa isso que me considere plenamente habilitado para extrair dessa experiência todos os “tesouros ocultos nas escuridades”, apenas que confio naquilo que tenho recebido do Senhor e na Sua graça que nos conduz para o bom aproveitamento naquilo que for necessário para construir nossas vidas espirituais e conduzir vidas ao amor de Cristo!

Hò Philothánatos

17/12/2016

CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS.

DATA.

A data de composição do Evangelho de João é um tanto incerta, assim como de muitos outros documentos do Novo Testamento, mesmo assim é possível estabelecer uma datação bem confiável, mesmo que não seja exata, o que, aliás, ocorre com a datação da maioria dos documentos históricos, sobretudo em se tratando de Antiguidade, temos em favor dessa confiabilidade uma porção considerável de cópias dos escritos, cuja antiguidade remonta a muito próximo do período nascente da igreja cristã[1].

Segundo, Champlin:

[…] houve ocasião em que uma das tentativas favoritas dos críticos eruditos era demonstrar uma data bastante posterior para o evangelho de João, talvez tão tarde como 200 D. C., mas essa ideia vem sendo gradualmente abandonada, conforme novas luzes vão sendo lançadas sobre esse problema.

(Champlin, 2014, p. 518).

Os especialistas mantêm um certo consenso de que o evangelho de João, foi redigido entre os anos 60 e 100 (cf. Chouraqui, 1997, p. 40), ou ainda, entre 90 e 100, de acordo com Champlin (Idem, p. 518).

AUTOR.

Assim como a datação, autoria desse evangelho também tem sido alvo de intensas polêmicas, principalmente porque os eruditos do século XIX tinham preconceitos contra o sobrenatural e desconfiavam exageradamente das fontes antigas, numa atitude típica do liberalismo teológico.

Todavia, Chouraqui confirma a tradicional atribuição antiga da autoria a João, filho de Zebedeu (Iohanân bèn Zabdi), irmão de Tiago, que teria escrito o evangelho em sua velhice em Éfeso (Chouraqui, p. 39). Porém, Chouraqui é partidário da teoria que atribui a autoria à comunidade de discípulos de João em Éfeso:

Essa opinião leva em conta métodos de transmissão de textos correntes na época: ela tem a vantagem de resguardar, no essencial, a origem joanina do texto ao mesmo tempo em que explica algumas das dificuldades que a crítica bíblica encontra nele.

(Chouraqui, 1997, p. 39)

Não há motivos sólidos para se rejeitar a tradição antiga, constante no século II, ela é explícita em afirmar que João escreveu o quarto evangelho, Papias (✝ 163), que segundo o Prólogo antigo do século II, afirmou que João havia escrito um evangelho, Teófilo de Antioquia escreve no ano de 160, sobre João “autor inspirado”, Irineu (✝ 202), fala de João “o discípulo amado”, temos também, o fragmento de Muratori: “João, um dos discípulos”; Clemente de Alexandria (✝ 214); Tertuliano (✝ 240), Orígenes (✝ 254), a lista é longa, além das evidências internas; rejeitar o testemunho antigo é arbitrário e coloca em questão também a confiabilidade de outros testemunhos históricos da Antiguidade, tardia e recente.

OCASIÃO & FINALIDADE.

Uma das grandes conquistas modernas refere-se ao parentesco palestinense do quarto evangelho, o que está em plena concordância com as grandes tradições de Israel. A relação com a mentalidade da comunidade Qumrãn é

Papiro P 52< o fragmento mais antigo do Novo Testamento. João 19-8,31-33)

Papiro P 52. O fragmento mais antigo do Novo Testamento. João 19-8,31-33)

confirmada, na medida que em elementos “dualistas” (luz/trevas; verdade/mentira; espírito/carne; vida de cima/vida de baixo) são compreendidos, não como hauridos do ambiente gnóstico, como pretendia Bultmann, mas, da concepção ética no mundo palestino, da qual partilhavam as seitas judaicas, em especial os essênios e cristãos.

Isso não significa que o evangelho de João não sofreu influência do processo de helenização ocorrido no mundo Palestino, há em João um maior interesse no que concerne ao conhecimento e à verdade. Mesmo tendo semelhanças com doutrina de Fílon de Alexandria (séc.I), não é verdade que tenha tomado do neoplatonismo filoniano sua doutrina do Logos, mesmo que os vocábulos sejam semelhantes, a significação é bem diversa, pois o Logos joanino não é uma criatura intermediária entre Deus e o universo, mas o Filho preexistente, perfeitamente unido ao Pai.

Aceita-se que escrita do quarto evangelho foi realizada por João em Éfeso, quando já tinha certa idade.

Quando João, já muito idoso, começou a escrever a sua narrativa, não queria limitar-se a repetir ou conciliar as narrações primitivas. Embora tivesse à vista os primeiros Evangelhos, só tomou dos sinóticos algumas passagens breves da vida de Jesus, as que se referem ao seu ministério em Jerusalém.

(Hophan, 2008, p. 63)

O conteúdo teológico do evangelho de São João destaca a divindade de Jesus, sua transcendência e comunhão intima com o Pai, revela aspectos da vida divina do Cristo pré-encarnado, informa sobre o plano da redenção estabelecido por Deus “antes da fundação do mundo”.  Eusébio de Cesária, o cronista da Igreja cristã, escreve essa peculiaridade do evangelho de João, segundo observara Clemente de Alexandria:

Por fim, João, ciente de que o lado humano havia sido exposto pelos evangelhos, escreveu, impelido pelos discípulos e divinamente inspirado pelo Espírito, um evangelho espiritual. Eis o que refere Clemente.

(Eus. Hist. Ecl. Liv. VI, 14.7)

DIVISÃO DO LIVRO.

É concorde entre os estudiosos que o evangelho de João está dividido em basicamente duas partes, precedidas pelo Prólogo. Essas partes também apresentam seções facilmente identificáveis, posto que, as indicações geográficas e cronológicas – e mesmo os recursos literários, tais como narrativa e discurso – dão-nos uma boa delimitação dessas seções.

Transcrevemos, a seguir, da “Introdução ao Evangelho de São João”, Bíblia de Jerusalém, a seguinte possível divisão do evangelho, lembrando que essa é uma dentre outras possíveis, com utilidade para uma leitura introdutória:

─ Prólogo (1,1-18): “No princípio…”

─ Ministério de Jesus:

  1. O anúncio da nova economia (1,19-4,54): a semana inaugural; os acontecimentos que giram em torno da primeira Páscoa.
  2. Segunda festa, um sábado, em Jerusalém: primeira oposição à revelação (5,1-47).
  3. Na Galileia, segunda Páscoa: nova oposição à revelação (6,1-71).
  4. Festa das Tendas: a grande revelação messiânica: a grande recusa (7,1-10,21).
  5. A festa da Dedicação: decisão de matar Jesus (10,22-11,54).
  6. Fim do ministério público de Jesus e preliminares da última Páscoa (11,55-12,50).

─ A Hora de Jesus. A Páscoa do Cordeiro de Deus (13,1-20,31):

  1. A última ceia de Jesus com seus discípulos (13,1-17,26).
  2. A paixão (18-19).
  3. Os relatos da ressurreição e a bem-aventurança da fé (20,1-29).
  4. Primeira conclusão do evangelho (20,30s.).

─ Epílogo (21,1-25): anúncio da vida da Igreja e a espera do retorno.

(Bíblia de Jerusalém, 1992, p. 11981-1982)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1ª Edição, 2ª Impressão, Paris: Sociedade Bíblica Católica Internacional, São Paulo: Edições Paulinas, 1992

CHAMPLIN, R. N. (Ph. D.). Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Volume 3, 14ª Edição, São Paulo: Editora Hagnos, 2014.

CHOURAQUI, A. A Bíblia: Iohanân (O Evangelho Segundo João). Tradução de Lenide Duarte e Leila Duarte. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1997.

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. In. Coleção Patrística. Tradução das Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria Mãe de Cristo. São Paulo: Paulus, 2000.

HOPHAN, O. João. O Discípulo Amado. Tradução de Roberto Vidal da Silva Martins, São Paulo: Quadrante, 2008.

 

 

[1] Conforme excelente exposição com documentos em:  F. F. Bruce. Merece Confiança o Novo Testamento? 3ª Edição, Revisada, São Paulo: Edições  Vida Nova.

Lei e Evangelho – A Atualidade e Importância da Doutrina Luterana.

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Crédito da Imagem: bibliaespadadaverdade.blogspot.com

Crédito da Imagem: bibliaespadadaverdade.blogspot.com

Como a distinção entre lei e evangelho é luz de particular brilho, que serve ao propósito de dividir corretamente a palavra de Deus explicar e entender apropriadamente os escritos dos santos profetas e apóstolos, devemos conservá-la com especial diligência, a fim de não serem misturadas uma com a outra essas duas doutrinas, ou para que não se transforme o evangelho em lei, com o que se obscurece o mérito de Cristo e as consciências perturbadas são despojadas de seu consolo, que de outro modo possuem no santo evangelho, quando esse é pregado genuína e puramente, e com o qual em suas maiores provações podem sustentar-se contra os terrores da lei.

(Decl. Sól. V, 1)

A GÊNESE DO PROBLEMA.

Eu não acredito no evangelho! Sim, eu não acredito no evangelho que não transforma vidas, eu não acredito no evangelho que torna as pessoas piores, que torna as pessoas beligerantes, soberbas, intolerantes e desumanas!

Não acredito no evangelho que acusa, e, que condena! Não acredito no evangelho que pune e que mata. Por quê? Porque na concepção bíblica, de acordo com a compreensão do Dr. Martinho Lutero (1483-1546) e consequentemente do luteranismo, o evangelho que assim se apresente não é evangelho.

Meu amigo e irmão, o Reverendo Heber Fach, deu-me por presente um valioso livro, em seu frontispício escreveu a dedicatória, onde constam as seguintes palavras: “Lutero dizia que daria o título de Doutor de bom grato para quem fosse capaz de distinguir corretamente entre lei e evangelho”.

Essas palavras se inscreveram fundo em meu coração e desde então tenho estudado e pensado sobre essa temática. Aqui registro, de modo breve, parte de minhas reflexões sobre o assunto. Nesta data em que se comemoram os quatrocentos e noventa e nove (499) anos da Reforma Protestante, eu dedico esse escrito ao Reverendo Heber Fach e a todos os meus irmãos luteranos. Espero benevolência para com a inépcia do autor que ousa tratar de assunto tão sublime e que apreciem ao menos o seu esforço sincero.

Taboão da Serra, São Paulo, 30 de Outubro de 2016.

LEI E EVANGELHO, DOUTRINAS DISTINTIVAS DO LUTERANISMO

Ao inicio deste escrito foi afirmada a descrença naquilo que para muitos representa o evangelho, porque aquela imagem do evangelho, muitas vezes, encontrada mesmo entre aqueles que se apresentam como evangélicos, coloca em risco o próprio evangelho.

Não foi por pouca coisa que o Dr. Lutero esteve em conflitos com Zwínglio (1484-1531) e com outros teólogos do círculo luterano, João Agrícola (1494-1566) e Andreas Poach (1515-1585), mencionando apenas alguns dentre os mais destacados. Mas, especificamente aqueles e muitos outros dentre os nossos contemporâneos colocam em risco o evangelho.

O risco apresenta-se na crescente onda de antinomismo entre os evangélicos, e de modo mais forte na transformação do evangelho em lei. Dito de outro modo, uma porcentagem muito alta de evangélicos aprende e crê que o cristão verdadeiro é aquele que ora demasiadamente; que vive piedosamente e que luta contra as injustiças e a desigualdade social. Concordamos com a importância do comprometimento com todas essas coisas, todavia, confessamos que colocá-las em primeiro lugar, significa transformá-las em obras meritórias.

A forma luterana de responder à questão: “quem é o cristão verdadeiro?”, apresenta antes de qualquer coisa Deus e sua obra por nós. Como fez o Dr. Lutero ao explicar o segundo artigo do Credo, dizendo que Deus-Cristo:

[…] me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino e o sirva em eterna justiça […]

(Catecismo Menor, Explicação ao Segundo Artigo)

Destaquemos que de acordo com as suas palavras, a pertença, a submissão e o serviço cristão, não estão ausentes, mas aparecem como consequência da ação de Deus (II Cor. 5,18). Ora, essa posição do Dr. Lutero não esvazia a exigência dessas atitudes, antes as coloca em seu devido lugar.

Na perspectiva luterana compreende-se que a lei e o evangelho não se confundem com o antigo e o novo testamento e que também não se trata do erro dispensacionalista1 da afirmação de uma dispensação da lei e outra distinta dispensação da graça.
A Fórmula de Concórdia diz da lei:

[…] é doutrina divina em que a justa e imutável vontade de Deus é revelada, de como o homem deveria ser em sua natureza, pensamentos, palavras e obras para ser agradável a Deus e aceitável a Deus, e ameaça os transgressores com a ira de Deus, e com castigos temporais e eternos.

(Decl. Sól. V, 17)

Usando uma terminologia que não é luterana, a lei é um “sistema de vida” revelado por Deus, que abrange mandamentos positivos e negativos, ela exige uma vida de total retidão de pensamentos, palavras e atos, condena aos transgressores e não pode salvar os pecadores.

Mas, apesar disto, “[…] a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Rm. 7,12), principalmente porque cumpre seu objetivo principal, desde a Queda, a lei conduz o homem ao conhecimento de sua condição miserável e depravada e mostra que todo homem necessita da salvação que provém somente de Deus.

Já do evangelho, a Fórmula apresenta outra figura:

[…] é a doutrina que ensina o que o homem deve crer a fim de obter de Deus o perdão dos pecados, a saber, que o Filho de Deus, Cristo Senhor nosso, tomou sobre si e carregou a maldição da lei, expiou todos os nossos pecados e por eles pagou, e que apenas por ele chegamos de novo a estar nas graças de Deus, alcançamos a remissão dos pecados pela fé, somos libertados da morte e de todos os castigos dos pecados e somos eternamente salvos.

(Decl. Sól. V, 20)

Portanto, o evangelho é algo distinto da lei, e, não se constitui propriamente numa nova lei, nem mesmo de caráter superior, o evangelho é a revelação especial de Deus, que nos diz o que Ele fez e continua fazendo, por meio de Jesus Cristo para a salvação da humanidade. Neste ponto o Sola gratia, o Solo Christos, o Sola fide e o Sola Scriptura, se mostram em toda a sua harmonia, pois Ele nos oferece graciosamente a Sua justiça que está em Cristo Jesus; Ele salva plena e eternamente todo aquele que pela fé abraça as Sua promessas, das quais temos conhecimento unicamente pelas Escrituras.

Tendo em conta esses dados, é necessário que o cristão não apenas faça a distinção correta entre ambos, lei e evangelho, mas ainda que saiba aplicá-los na pregação e no consolo, pois aos não conversos cabe a aplicação do rigor da lei para condução à consolação do evangelho.

Tudo quanto prega a respeito de nossos pecados e da ira de Deus, não importa como nem quando é pregação da lei. O evangelho, por outro lado, é pregação que mostra e não dá senão graça e perdão em Cristo, embora seja verdadeiro e justo que os apóstolos e os pregadores do evangelho (como também o próprio Cristo fez) confirmem a pregação da lei e comecem por ela no caso dos que ainda não reconhecem seu pecado […]

(Decl. Sól. V, 12)

Na pregação da lei o pecador é posto diante da vileza de sua condição, na teologia luterana esse uso da lei é chamado usus elenchticus (para a revelação e convencimento do pecado2), junto a essa função temos também uma segunda forma de aplicação da lei, chamada usus paedagogicus (onde a lei serve de aio para a condução a Cristo, conforme, Gl. 3,24). Porém, isso não significa que não haja aplicação da lei para o cristão, pois a doutrina luterana admite que na vida cristã, ocorre a existência o conflito constante da carne contra o espírito (Gl. 5,17), bem sumariado pelo Dr. Lutero ao analisar a passagem de “Aos Romanos”, capítulo sete (7) donde expõe a doutrina que afirma ser o cristão “simul justus et peccator”:

Observa, agora o seguinte, o seguinte: os santos, ao mesmo tempo são justos, são pecadores; justos porque crêem em Cristo, cuja justiça os reveste e lhes é imputada, mas pecadores porque não cumprem a lei e não vivem sem concupisciência, mas são pessoas doentes sob cuidados de um médico; elas são real e verdadeiramente doentes, mas, na fase inicial de convalescença e na esperança, são sadias, ou melhor, são tornadas sãs, isto é, estão em via de ser curadas. Para tais pessoas, a presunção de já serem sadias é extremamente prejudicial, pois uma recaída pode tornar tudo muito pior.

(Lutero, OS, Vol. 8, [347,1] p.299)

Disto decorre a terceira forma de aplicação da lei3 (perpetua vivendi regula; ou, usus didaticus), de acordo com este modo, o:

[…] Espírito Santo faz uso, para com eles (os cristãos), da lei escrita, para o ensino, e através disso também os verdadeiros crentes aprendem a servir a Deus não de acordo com os próprios pensamentos, ma segundo a sua lei e palavra escritas, que é a regra e norma certa para instituir vida e procedimento piedosos, em harmonia com a eterna e imutável vontade de Deus.

(Decl. Sól. VI, 3)

Assim lei serve à repreensão dos cristãos, enquanto pecadores, e lhes indica o modo de viver, pela ação do Espírito neles, segundo a vontade de Deus (segundo a Fórmula: “[…] por ela cumpre que regulem e governem toda a sua vida.” Epítome V, 1); a amplitude dessa temática se insere na doutrina desenvolvida pelo Lutero sobre a verdade bíblica da justificação.

Cabe, enfim, apresentar as razões pelas quais a correta distinção entre lei e evangelho é necessária.

Primeiro, porque ela proporciona a correta apreciação das Escrituras, ela: “[…] é luz de particular brilho, que serve ao propósito de dividir corretamente a palavra de Deus explicar e entender apropriadamente os escritos dos santos profetas e apóstolos” (Dec. Sól. V, 1), Carl Walther, diz que muitas pessoas estão confusas e não entendem as Escrituras, porque não sabem fazer e aplicar essa distinção, elas supõe ser o antigo testamento todo lei e o novo testamento, todo evangelho, entram em colapso quanto se deparam com passagens neo-testamentárias que aplicam o rigor da lei, estas pessoas, quando não abandonam a fé cristã, produzem distorções doutrinarias perniciosas a todos.

O que acontece não é que o Antigo Testamento revela um Deus irado, e o Novo Testamento, um Deus gracioso; ou que o Antigo ensina a salvação por obras próprias e o Novo Testamento, a salvação pela fé. Não. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento contêm ambas as doutrinas: lei e Evangelho. Mas no momento em que aprendemos a diferenciar Lei de Evangelho, é como se o sol nascesse sobre as Escrituras e notamos que todo o seu conteúdo está na mais perfeita harmonia. Verificamos que a Lei não nos foi revelada para inculcar em nós a ideia de que, através dela, podemos nos tornar justos, mas sim para mostrar-nos que somos totalmente incapazes de satisfazer a suas exigências. Uma vez aprendido isso, devemos tomar conhecimento da doce mensagem, da maravilhosa doutrina que é o Evangelho e recebê-lo com intenso jubilo.

(Walther, C. 2005, p. 71)

Segundo, se quisermos entender com clareza a doutrina fundamental da fé cristã, a doutrina da justificação pela graça, conforme ensina o luteranismo, devemos saber separar ambas as doutrinas, pois implica na exclusão de quaisquer elementos legalistas na salvação.

[…] não sejam misturadas uma com a outra de modo que se atribua a uma o que pertence a outra, com o que o mérito e os benefícios de Cristo fica facilmente obscurecido e o evangelho volta a ser transformado em doutrina da lei, […]

(Decl. Sól. V, 27)

Terceiro, onde houver confusão entre as duas doutrinas, não será possível afirmar o consolo e segurança do cristão, caso almeje a salvação, sempre haverá em seu horizonte o imperativo de cumprimento das exigências divinas, e, posto que sabemo-nos incapazes de tal feito teremos sempre dúvidas quanto ao estado da graça.

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.

(Rm. 3,23, 24)

[…] Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.

(Gl. 2,16)

Concluímos, então, com a lembrança daquilo que o Dr. Lutero escreveu no Prefácio da Epístola de São Paulo aos Romanos, onde afirma que o cumprimento da lei, está na realização da obra de Deus, em amor, está em viver livre e divinamente, sem quaisquer coações da lei, sem medo da lei ou de haja um castigo.

Mas quem dá essa disposição a um amor desinteressado é o Espírito Santo, conforme ele diz no capítulo 5[5]. O Espírito, porém, não é dado a não ser em, com e por meio da fé em Jesus Cristo, como ele afirma no prefácio [1,7]. Desse modo, a fé não aparece, a não ser por meio da palavra de Deus ou do Evangelho que Cristo prega enquanto filho de Deus e homem que morreu e ressuscitou por nós, segundo ele afirma nos capítulos 3 [21-25], 4 [24-25] e 10 [9-17]. Disso decorre que apenas a fé justifica e cumpre a Lei, pois traz o Espírito oriundo do mérito de Cristo; o Espírito, porém torna o coração disposto e livre, tal como exige a Lei; portanto, as boas obras advêm da própria fé. É o que ele quer dizer no capítulo 3 [31], depois de ter rejeitado a obra da Lei dando a impressão de quere abolir a Lei por meio da fé. Não (diz ele, nós estabelecemos a lei por meio da fé, isto é, nós a cumprimos por meio da fé.

(Lutero, Pref. Epíst. Aos Rom. 1998, pp. 88-89)

NOTAS.

[1] O dispensacionalismo é um sistema teológico originado entre os “Irmãos Plymouth”, ele advoga que o plano de Deus para a salvação da humanidade está dividido em sete dispensações, nas quais Deus prova o individuo quanto à obediência a uma revelação especial de Sua vontade. O fundador desse sistema foi John Nelson Darby (1800-1882), e sua popularidade entre os evangélicos se deve ao fato de ser a orientação teológica da Bíblia de Referência Scofield (1909), além de ser o sistema oficial de teologia no Instituto Bíblico Moody (Chicago). Um bom esclarecimento e refutação dos erros dispensacionalistas, pela perspectiva luterana, se encontra em “Os Últimos Tempos: Um Estudo Sobre Escatologia e Milenarismo”, Sínodo de Missouri, 1989. (Vide Bibliografia).

[2] Conforme explica Mueller, Dogmática Cristã (Vide Bibliografia), páginas 447-448.

[3] Há uma discussão nos círculos teológicos luteranos sobre o chamado “usus politicus” da lei, segundo o qual somos constrangidos à obediência externa da lei, o que faria, então, com que o uso da lei fosse quádruplo e não triplo. Mueller discorre bem sobre esse tópico, Dogmática Cristã, página 451.

BIBLIOGRAFIA.

COMMISSION ON THEOLOGY AND CHURCH RELATIONS OF THE LUTHERAN CHURCH – MISSOURI SYNOD. The End Times: A Study on Eschatology and Millenniarism. St. Louis: LCMS, 1989.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012.
___________________. Tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e corrigida. Rio de Janeiro, RJ: Imprensa Bíblica Brasileira, 1993.

LIVRO DE CONCÓRDIA. Tradução e Notas de Arnaldo Schüler, 4ª edição. São Leopoldo, RS: Sinodal, Porto Alegre, RS: Concórdia Editora, 1993.

LUTERO, M. Obras Selecionadas. Volume 8, Interpretação Bíblica, Princípios. Tradução de Adolfo Schmidt, Eduardo Gross, Elisa L. Schulz, Luiz H. Dreher, Walter O Schlupp. São Leopoldo, RS: Sinodal, Porto Alegre, RS: Concórdia Editora, 2003.

____________. Da Liberdade do Cristão, Prefácios à Bíblia. Tradução de Erlon José Paschoal. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

_____________. Os Catecismos. Tradução de Arnaldo Schüler. Porto Alegre, RS: Concórdia Editora, São Leopoldo, RS: Sinodal, 1983.

MUELLER, J. T. Dogmática Cristã: Um Manual Sistemático dos Ensinos Bíblicos. Tradução de Martinho L. Hasse, 4ª edição revista e ampliada. Porto Alegre, RS: Concórdia Editora, 2004.

WALTHER, C. F. W. A Correta Distinção Entre Lei e Evangelho. Tradução de Marie Luize Heimann, Porto Alegre, RS: Concórdia, 2005.

Aos Hebreus – 1, 8-9.

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Retomamos nosso estudo do escrito Aos Hebreus. Nesta parte trataremos dos versículos oitavo e nono (VV. 8-9).

TEXTO GREGO.

Prós dè tón hión,

Hó thronos sou hó theós eis ton

aiona tou aionos,

Kai he rhábdos tês euthútetos

rhábdos tês basileías

sou

Egápesas dikaiosúnen kai emísensas

anomían

dia touto echrisén se hó theós,

hó theós

sou

Elaion agalliaseus parà toùs

metochous sou.

TRADUÇÃO.

Mas, do filho, diz: Ó Deus, o teu

trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de equidade é o

cetro do teu reino.

Amaste a justiça e aborreceste

a iniqüidade, por isso Deus,

o teu Deus te ungiu com

óleo de alegria mais do que a

teus companheiros. (vv.8-9)

 CONSIDERAÇÃO INTRODUTÓRIA.

Temos aqui, mais uma construção do hagiógrafo, que busca em um Salmo Messiânico (Sl. 45, 6-7[1]) o clímax de sua argumentação acerca do estatuto divino do Filho, Jesus.

BREVE EXEGESE.

(V.8) “Mas, do filho, diz: […]”.  O hagiógrafo enfatiza a distinção entre os anjos, enquanto criaturas a serviço de Deus, e o filho, que é Rei e Deus. Como ele, o hagiógrafo, faz isso? Ele marca essa distinção com o uso das conjunções adversativas: μεν (v.7)… δε (v.8).

  • A partir deste ponto temos a citação do Salmo, este é reconhecido como messiânico.

Salmos Messiânicos: são aqueles que traduzem ao mais alto ideal da escatologia judaica, a expectativa messiânica, inaugurada na profecia de Natã ao rei Davi e presente em toda a trajetória da história bíblica. Os Salmos articulam a expectativa de sua vinda, com ênfase especial na função régia e sacerdotal de Davi, e na promessa que seu descendente instauraria o Reino Universal de Yahweh estendendo a salvação a todos os povos. Os números dos salmos considerados messiânicos são os seguintes: 2; 22; 45; 89; 110 e 132.

(v. 8) “Ó Deus, o teu trono subsiste, pelos séculos dos séculos; […]”

  • Por mais paradoxal que aparente, sobretudo para o judeu, e mesmo para nós que estamos absorvidos pelo ‘desencanto do mundo’, esse verso nos apresenta o próprio Deus dirigindo-se reverentemente ao filho e lhe chamado de Deus

Os comentaristas judeus concordam que esse salmo se refere ao Rei Messias e falam de seu casamento com Israel, alegoria da redenção de seu pov. Porém, discordam que seja uma referência a um possível estatuto divino do Messias. Desta forma traduzem o versículo da seguinte forma: “[…] Teu trono, estabelecido por Deus, […]”.

→ Observação: Essa era a forma como Ário[2] e seus discípulos liam o mesmo verso; embora seja um modo discordante daquele professado ao  longo dos séculos pela ortodoxia cristã, é mais próximo o texto grego, do que, a forma como o traduz a Sociedade Torre de Vigia : “[…] Deus é o teu  para todo sempre, […]”[3].

David H. Stern (1935-) apresenta o comentário do erudito judeu, A. Cohen, acerca da tradução deste verso no Salmo 45, Cohen admite que uma tradução mais óbvia seja: “O teu trono, ó Deus […]”, porém, justifica sua escolha, supra, alegando que doutra forma não se ‘encaixaria no contexto’. Stern, concluí:

Está claro que a razão para que ele pense que “não se encaixa no contexto” é que, apesar de considerar o salmo 45 como se referindo ao Messias, não está disposto a admitir que o salmista possa estar profetizando acerca do caráter divino do Messias.[4]

Este é um importantíssimo testemunho acerca da divindade de Jesus, porque o texto atribui a fala ao próprio Pai. Lembremos que os hebreus, destinatários deste escrito, estavam dispostos a aceitar a superioridade do Messias, mas não há como supor que estivessem dispostos a aceitar que ele seja Deus. Além disto, para aqueles que confessassem a sua fé em Jesus, como Messias, havia certo “impedimento” a fé, pois a família, de Jesus, sua mãe, irmãos e irmãs viviam entre os seus compatriotas hebreus. Portanto, o autor procura vencer este fator com o testemunho das Escrituras Sagradas.

Esse último aspecto se reveste de especial importância, pois sendo a sua família, composta de hebreus, de pessoas comuns sem quaisquer distintivos que os diferenciasse dos demais hebreus, poderia suscitar a estranheza que dentre eles tenha saído, não apenas o Messias, mas o próprio Deus em carne, essa não é uma ideia comum ao pensamento hebraico!

(v.8) “[…] pelos séculos dos séculos, […]”.  Essa expressão é sempre usada em referência a Deus, ou a Cristo, e significa ‘existência eterna’, “eis tóus aionas ton aionos”.

(v.8) “[…] cetro de equidade é o cetro do teu reino”.

  • Equidade é euthútés e justiça é dikaiosúne, ambas são descritas como constituintes do fundamento do reino de Deus (Sl. 89,14; 97,2).
  • A equidade provém de euthús, cujo significado é reto, metaforicamente direito, por isso tem haver com o juízo, a capacidade de julgar retamente.

(v. 9) “Amaste a justiça […]”. Amar a justiça (gr. dikaiosúne) mostra a nobreza da prática da virtuosa justiça. Qualquer outra motivação: obrigação, dever, responsabilidade, ou mesmo assentimento intelectual, é menos nobre que o amor à justiça (II Ts. 2,10).

  • A justiça aqui se refere ao atributo de Deus, tem haver com Sua disposição espontânea em justificar a humanidade.

(v. 9) “[…] e aborreceste a iniqüidade; […]”. Essa é a face negativa da virtude do fundamento do reino: o ódio à iniqüidade (gr. anomía), ‘ilegalidade’; ‘violação da lei’. O Rei articula o seu reino num equilíbrio entre as duas faces opostas da virtude, o amor à justiça e o ódio à iniqüidade; é mais do que um procedimento, é uma disposição.

(v. 9) “[…] por isso Deus, […]”. Novamente, o filho é chamado Deus, no vocativo e com artigo (ο θεος), o que confirma a presente análise acerca da divindade de Jesus.

(v. 9) “[…] o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais que a teus companheiros.”  A unção (gr. echrisón) evoca a ideia de coroação, com festa e banquete, daí a alegria.

Os companheiros (gr. metochous) são aqueles que partilham com Ele o reino vindouro.

O autor indica que essa unção real é devido à retidão do filho, o amor à justiça e o ódio à inquidade, Paulo traduz essa mesma ideia, aplicando-a a obediência e humilhação de Cristo (Fp. 2,9).

TRANSLITERAÇÃO DO TEXTO HEBRAICO, SALMO 45, 7-8.

7 – Kis’achá Elohim olam vaed,

shévet mishor shévet malchutêcha.

            8 – Ahávta tsédec vaisná résha,

al Ken meshachachá Elohim Elohêcha

Shémen sason mechaverêcha.

[1] Na LXX, na Tanach corresponde ao Salmo 45, 7-8.

[2] Ário foi um padre alexandrino do século IV que propôs a doutrina que subordinava o Logos ao Pai, essa concepção tornou-se conhecida por “arianismo” e espalhou-se pelo Império, sendo condenada no Concílio de Nicéia (325).

[3] Tradução Novo Mundo das Escrituras Sagradas, Cesário Large, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1986.

[4] STERN, D. H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Didática Paulista /     Belo Horizonte: Editora Atos, p. 726.  2008

 

O Islã e sua incompatibilidade com a verdadeira confissão de fé cristã.

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O Nome, Jesus, em caracteres árabes. Crédito da Imagem: http://www.joaoleitao.com/

O Nome, Jesus, em caracteres árabes. Crédito da Imagem:   http://www.joaoleitao.com/

O mundo contemporâneo tem se tornado um lugar difícil para a verdade, mesmo havendo um discurso consensual da tolerância e da aceitação de múltiplas “verdades”, que pretende garantir o direito de estatuto de verdade a todas, mesmo quando isso implicaria na anulação lógica, no caso de afirmações excludentes.

A busca dos pontos convergentes entre as religiões incorpora o discurso da tolerância e o politicamente correto, e, condena qualquer afirmação de discordância doutrinal (teológica) ou prática, é comum a noção de que todas as religiões pregam a mesma coisa com roupagem diferente, os que assim crêem desconsideram que, se assim fosse, não seriam religiões diferentes. Não nego que haja alguns pontos de convergência e que, sobretudo no aspecto da moralidade muitas semelhanças, mas há aspectos fundamentais das religiões que marcam profunda divisão e diferença entre elas, de modo tal que não é possível conciliá-las sem desfigurar-lhes em sua essência!

O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo são considerados religiões do Livro, e, a afirmação do monoteísmo que lhes é comum, guardando as devidas diferenças, faz com que muitos os considerem desenvolvimentos subseqüentes de uma mesma revelação.

Um ponto fundamental da fé cristã é a resposta desta fé na pessoa de Jesus, que pode ser expressa como resposta à pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou? (Mt. 16, 15[1]).

Num recente vídeo disponível na Internet[2] vemos um líder muçulmano “encurralar” uma jovem que afirma ser cristã, e, aparentemente demonstrar que Jesus não deve ser considerado Deus, além de, também aparentemente, demonstrar que apenas o Islã segue verdadeiramente os ensinos de Jesus e O honra do modo correto. Ele diz:

“O Islã é a única religião não cristã que faz da própria crença em Jesus um ato da própria fé.”

É verdade que o Alcorão se refere a Jesus de modo respeitoso, a Ele são aplicados títulos como: a Palavra de Deus; a Palavra da Verdade; o Mensageiro de Deus e o Profeta de Deus. Todavia, esses títulos honoríficos podem até refletir parte do ministério de Jesus, mas não tudo aquilo que as Escrituras cristãs dizem que Ele é.

O evangelista S. Mateus apresenta a narrativa da confissão de fé do apóstolo Pedro (Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. Mt. 16,16) que é considerada como o paradigma da confissão cristã, o testemunho maior sobre a pessoa de Jesus e Seu ministério. Desde a interpretação dos Padres da Igreja, São João Crisóstomo; São Jerônimo; São Leão Magno e a imensa maioria dos comentaristas católicos e protestantes concordam que essa confissão refere-se à messianidade e à divindade de Jesus. O título, Filho de Deus, não corresponde em nenhum dos Evangelhos, ao título de Messias, antes expressa a magnífica transcendência, equiparável a do Pai (Mt. 11, 25), o contexto deixa claro que Ele, o Pai, está acima das coisas consagradas a Ele, acima do Templo, acima do Sábado, acima dos soberanos e acima até anjos; lendo a confissão de Pedro, no mesmo contexto, chegamos à mesma conclusão acerca de Jesus. O próprio Jesus atribui a confissão de Pedro a uma revelação de Seu Pai celestial.

Vemos que mesmo, noutros contextos, até os oponentes de Jesus entenderam que em Seu modo de falar Ele se fazia Filho de Deus, e por isso mesmo, igual a Deus, logo o acusaram de blasfemo e queriam executá-lo (Jo. 5,18), noutro momento O recusam porque, sendo homem, se fazia Deus (Jo.10,33). O próprio julgamento de Jesus apresenta a acusação de blasfêmia, réu de morte por afirmar-se Cristo, e, Filho de Deus; notemos é a mesma formula da confissão de Pedro. Se os inimigos de Jesus entenderam o que Ele dizia de si mesmo, é correto deduzir que seus discípulos, que o seguiram e aprenderam Dele durante todo o seu ministério, entenderam com muito mais clareza e profundidade o que Jesus queria dizer ao chamar-se Filho de Deus. Provavelmente essa fé, tenha sido o auxilio da graça, da revelação do Pai, e, tenha crescido a cada dia, na medida em que ouviam a Jesus e testemunhavam a expressão de seu poder absoluto em atos miraculosos.

Então, podemos dizer que o cristianismo considera, segundo as Escrituras, a fé em Jesus, Cristo, Filho de Deus, Senhor e Salvador, um ato da graça divina e da Revelação do Pai, por seu Espírito.

O Islã não pode aceitar essa confissão fundamental da fé cristã, para os mulçumanos, Jesus não é o Filho de Deus, assim o diz o Alcorão[3]:

Por que Deus teria tomado a Si um filho? Exaltado Seja! Quando decreta algo, basta-lhe dizer: “Sê!” para que seja. (Sura 19, 35)

Deste modo, embora considere o nascimento de Jesus um ato sobrenatural, não é um ato diferente da criação de Adão, da qual também não houve participação humana.

Aos olhos de Deus, Jesus é como Adão: criou-o de barro, depois disse-lhe ”Se”, e ele foi. (Sura 3,59).

Em decorrência desta crença a própria crucificação de Jesus é negada (Sura 4, 157), e, conseqüentemente Sua Ressurreição.

Percebe-se que uma correta apreciação acerca da pessoa de Jesus se faz necessária para que todas as afirmações da fé cristã, fundamentadas na Bíblia, sejam também corretamente compreendidas.

Portanto, apesar de todas as palavras elogiosas que se dirijam a Jesus, Ele é mais digno de toda a honra e glória, segundo as Escrituras, respeitamos as pessoas de qualquer outra fé, mas temos que destacar que em absoluto possamos ter comunhão com elas, pois Jesus, o Cristo é a pedra de toque pelo qual se pode determinara a genuinidade da fé que corresponde à vontade de Deus, segundo as Escrituras.

Encerramos com o seguinte verso: Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. (Jo. 5,23)

 

Referências Bibliográficas

BIBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida, Versão Revista e Corrigida, Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1992.

O Alcorão. Tradução de Mansour Challita. Rio de Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran, Sem Data.

Sou católica… Vou para o Inferno? Muçulmano responde jovem cristã. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=8mYSmCKUx74. Acesso em 01/Out/2015

[1] Todas as referências bíblicas são da Almeida, Revista e Corrigida.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=8mYSmCKUx74

 

[3] Citações do Alcorão, tradução Mansour Challita.

O Cristão e o Sentido dos Milagres

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Em muitos ambientes evangélicos as pessoas dão de ombros à simples menção da palavra milagre. Talvez, devamos considerar que esses cristãos tenham sido influenciados, tal modo, por uma escolarização contemporânea que nada de sobrenatural lhes diz respeito! Afinal, nos ambientes escolares – e também mais acadêmicos – somos questionados: – Ainda faz sentido crer em milagres num mundo quase totalmente manipulado pelas mãos e pela inteligência humana?

Bem, sempre houve pessoas ávidas pela impressão causada pelo miraculoso, que anseiam por ter a capacidade de andar sobre as águas, sem afundar, ou multiplicar o alimento quando a fome lhe aperta e já não se tem recursos para comprar, não apenas isso, mas, em realizar outras coisas maravilhosas, ainda mais impressionantes – não seria motivo de máxima felicidade trazer à vida um ente ou amigo querido, que alguma fatalidade nos tomou?

No mundo não cristão da Antiguidade o anseio e a fantasia originaram muitas lendas e fábulas. No período Medievo e mesmo na Modernidade, muitas histórias sobre homens e mulheres santas foram enfeitadas de uma forma tal que quase não se distingue a verdade do mito, quase não se pode acreditar em sua existência. É sintomático que hoje sejamos tomados por um mal-estar diante de toda referência ao miraculoso. Entre os católicos se contam os milagres de Fátima e Lourdes – dentre muitos outros –, já os evangélicos têm seus “apóstolos” e “profetas”, “homens poderosamente usados por Deus”. Mas, não seriam todas essas histórias auto-ilusão? Ou charlatanismo? Ou ainda somos ingênuos e infantis o suficiente para acreditar nelas? É possível ser um bom cristão sem correr atrás dessas coisas?

A fé cristã não se alicerça sobre o sensacionalismo e o miraculoso, aliás, o cristão não vive de visões, mas vive pela fé (II Cor. 5,7). Com certeza mais sobriedade é necessária para que a fé seja robustecida. Infelizmente muito dentre nós, os cristãos, têm mais interesse por visões e espetáculos, do que fome pela Palavra de Deus; muitos são mais supersticiosos, do que crentes em Jesus, o Cristo, em quem temos remissão dos pecados e a esperança na vida eterna.

Alguns dentre nossos irmãos se impressionam facilmente, e, quando têm notícias de que em algum lugar acontecem fenômenos extraordinários apressam-se em ir até tal lugar “buscar a benção”, e, muitas vezes arrastam após si ainda outros tantos. Essas pessoas supõem – ou aprenderam – que crer significa ‘crer que Deus faz coisas extraordinárias para nos deixar impressionados’! E isso é um sintoma da falta de reflexão nas Escrituras, no sentido do milagre, segundo as Escrituras.

Nossos antepassados compreendiam os milagres como testemunhos da divindade de Jesus, como resposta sobrenatural do questionamento acerca do poder de Jesus, que é Deus. Portanto, o milagre tem grande importância para um dado essencial de nossa fé. Todavia, em nossos dias, alguns de nós vemos os milagres como um estorvo, como um escândalo que atrapalha o anuncio da mensagem de Cristo. Talvez, a educação teológica tenha descristianizado muitos de nossos teólogos, o método histórico-crítico introjetou em muitos uma aversão às narrativas miraculosas de qualquer caráter. E o avanço das ciências tornou pouco interessante as histórias de milagres. A Internet, os smartphones e as holografias são criações humanas que parecem mais maravilhosas que as visões angelicais. Os vôos em transcontinentais, ou mesmo o comodismo de nossos automóveis, deixam pouco espaço para arrebatamentos do espírito ou em carros de fogo!

Somos pragmáticos, se temos doenças, procuramos os médicos, só como último recurso, buscamos a Deus, oramos, ou pedimos a intercessão – em oração – aos nossos irmãos. Não significam, esses comportamentos, que precisamos refletir, a partir das Escrituras, sobre qual seja o significado dos milagres, da ação de Deus, para nós, hoje! Não nos parece que Deus só encontra ocasião em nossas vidas, quando se acabam as chances de resolução através da ciência e da técnica humana? Não começamos a orar e a pedir a Deus quando tudo parece perdido? Não usamos a Deus como um paliativo, um “tapa-buracos”, que deve ceder espaço em nossas vidas na mediada em que a ciência progride? É este Deus que nos apresenta a Bíblia? É este o Deus que verdadeiramente fez, e faz milagres?   Para estas duas últimas perguntas o cristão só tem uma resposta: não!

A Bíblia é mais do que um livro em que encontramos histórias fabulosas. Na Bíblia há sim muitas narrativas de acontecimentos extraordinários, mas esses acontecimentos devem ser compreendidos no interior do grande contexto histórico-salvífico, que os distingue das fábulas e lendas dos mitos não-cristãos da antiguidade.

O problema é que somos herdeiros do projeto educacional do Iluminismo, e os iluministas foram críticos contumazes dos relatos bíblicos sobre os milagres. O filosofo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) afirmara que na Bíblia não encontramos os milagres como tais, mas simples narrativas de milagres. O teólogo protestante David Friedrich Strauss (1808-1874) ensinava que as narrativas de milagres nos Evangelhos são míticas. Mais próximo de nossos dias Rudolf Bultmann (1884-1976), outro importante teólogo protestante, defendeu uma tese – amplamente aceita em diversos círculos teológicos – de que os milagres são inconciliáveis com a cosmovisão do mundo contemporâneo.

Responderemos aqui a todas essas críticas?

Adentrarmos nessa polêmica resultaria em discussão estéril, pouco frutuosa para nossas vidas, muito tem sido escrito e debatido sobre esse assunto.

De qualquer forma, a perda da compreensão bíblica do milagre empobreceu-nos muito e alimentou controvérsias estéreis. Aguardar ações miraculosas, extraordinárias e grandiloqüentes da parte de Deus, em geral, torna-nos insensíveis às coisas grandiosamente miraculosas da parte de Deus: a criação, a providência e a redenção em Cristo, e por Cristo!

Os humanos na primeira aliança (chamada comumente de Antigo Testamento) possuíam uma sensibilidade que os permitia contemplar Deus no desenvolvimento natural da criação e não apenas em ações grandiosas. Milagre é, no Antigo Testamento, primordialmente um sinal da atuação de Deus no mundo, cujo objetivo é sempre a salvação da humanidade e não o sensacionalismo. Os antigos da Bíblia tinham, pois, uma fé mais substancial e o conceito de milagre, enquanto sinal para essa fé é mais amplo do supomos ao pensar em milagres hoje.

Nos tempos do Novo Testamento se pode considerar a situação de modo semelhante. Contemplar os milagres de Jesus não deve nos levar a considerá-los provas científicas de Sua divindade. Pois só a fé nos ensina que Jesus Cristo é Deus. Isso é claro, considerando que mesmo muitos dos que o viram fazendo milagres, atribuíam-lhes ao poder dos demônios (Mat.12,24; Jo. 7,20; 8,48), faltava-lhes a fé.

Os milagres são sinais para os olhos da fé, indicando a presença atuante de Deus no mundo, testificando a eclosão do reino de Deus em Cristo, de acordo com as palavras dos profetas em seus escritos. Os Evangelhos não usam os milagres como espetáculos, com objetivo de provar com “exatidão matemática” que Cristo é Deus; eles contam sinais – essa é a palavra preferida do evangelista João, sinal (gr. σημειωv) – que revelam o poder escatológico e salvífico de Deus, em Cristo, Jesus. Portanto, todas as narrativas e milagres nos evangelhos necessitam ser vistas dentro do contexto daquilo que são os evangelhos, mensagem de boas novas.

Os milagres de Jesus, embora ocorridos em situações concretas e específicas, não tinham como objetivo primário o afastamento da miséria material do mundo, já que o significado da encarnação não se restringe à filantropia por parte de Deus. Mesmo assim, devemos seguir o exemplo de Jesus na prática das boas obras, afinal Deus às preparou de antemão, para que nós, pela graça andássemos nelas (Ef. 2,10). Mas, tenhamos sempre diante de nós, o fato que a obra redentora de Cristo é mais que um gesto de nobreza: é a ação de salvação feita por Deus, em Cristo, conduzindo-nos à vida eterna!

Fonte da Imagem: https://escritasvermelhas.wordpress.com/category/edificacao/

Fonte da Imagem:
https://escritasvermelhas.wordpress. com/category/edificacao/

No sentido bíblico os milagres testificam ação de Deus à fé, mas não devem ser compreendidos como espetáculos. Os milagres são expressões da intervenção amorosa de Deus, segundo Sua vontade, e não objeto de constatação experimental. Representam no mundo grandiosidade da dinâmica vontade de Deus, sob a qual repousa e se orienta nossa esperança acerca da salvação da humanidade e de todo universo. São sinais da salvação vinda a nós e viva em nós, e, isso em Cristo, mas sempre sinais da fé: “tua fé te salvou!”. Logo, o milagre, segundo o Evangelho, pressupõe a fé e confirma a fé. Nisto vemos grande importância do testemunho da fé, mais que qualquer sensacionalismo, porque é apenas pela fé que reconhecemos a ação de Deus no cotidiano viver, compreendendo que Ele age não apenas em acontecimentos extraordinários, mas de modo muito luminoso Ele age nas pequenas coisas. Os milagres são apelos à fé, e, não provas científicas de Deus.  Os maiores milagres…? Acredito que, assim de chofre, nós cristãos responderíamos: a criação do mundo e sua redenção por Cristo!

 

 

 

 

 

Atravessando o Pórtico – A Loja Maçônica e Seus Simbolismos.

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Atravessar o Pórtico é deixar o mundo profano atrás de si, mas não é ainda penetrar na imagem do mundo perfeito. Pois, para isso os maçons precisam primeiro vestir suas insígnias, o que ocorre na Sala dos Passos Perdidos, após a inspeção do Experto,

As Colunas de Booz e Jachin. "Na Força Se Estabelecerá"

As Colunas de Booz e Jachin. “Na Força Se Estabelecerá”

esse procedimento garante o acesso exclusivo dos irmãos.

A Loja simboliza o mundo, o universo, daí a sugestão de que sua etimologia seja do sânscrito, Loka. Sua representação ideal era originalmente traçada com giz no chão, este projeto chama-se Quadro da Loja, do qual o Templo deve ser uma concretização e este orientado sob os quatro pontos cardeais, com especial destaque para o Oriente, onde se encontra assentado o Venerável, seu trono é ladeado pelos tronos dos Vigilantes.

Essa disposição reflete a importância da simbologia ternária, como por exemplo, os graus simbólicos, em número de três: Aprendiz, Companheiro e Mestre, ou a iluminação oriunda de três janelas, situadas ao Oriente, ao Sul e ao Oeste, além das três velas acesas, ambos simbolizam a Divindade em seus três dynameis, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, vede que uma Loja, além da disposição geográfica e da arquitetura determinada[1], deve conter os Ornamentos, o Mobiliário e as Jóias, se assim ocorrer, ela é considerada uma Loja “justa, perfeita e regular”, então, nela se pode trabalhar a construção do Templo.

Cada Grau tem ao seu encargo a responsabilidade no trabalho da ‘Construção’, embora, apenas a partir do Terceiro Grau, Mestre, o membro é considerado um verdadeiro construtor. O Primeiro Grau, o Companheiro, deve ‘desbastar a pedra bruta’,

Aprendiz:, o Malho e o Cinzel, e, o árduo trabalho  de 'desbastar e pedra bruta'

Aprendiz:, o Malho e o Cinzel, e, o árduo trabalho de ‘desbastar e pedra bruta’

essa pedra nada mais é, senão a personalidade do profano antes da iniciação, como Aprendiz, ele executa essa tarefa por meio do árduo estudo das leis e dos mistérios de seu grau, mas também dos usos e costumes maçônicos os quais deve compreender e assimilar. Seu símbolo é o malho, junto ao cinzel, representam, respectivamente, a vontade e o intelecto, ambos devem ser usados no desbaste da pedra.

O malho e o cinzel são emblemas de terceira ordem, nos Templos Simbólicos eles são colocados à esquerda da Coluna B (Rito Escocês), coluna esta destinada ao Aprendiz, posto que seu nome, Booz ou Boaz, significa ‘força’ ou ‘na força’. Movimentar-se da Coluna B para a Coluna J é caminhar ‘no interior’ do Templo, é ingressar no Segundo Grau, e isso trás consigo novos desafios. Mas, talvez, discorramos sobre isso noutra oportunidade!

[1] Ao Templo também pertencem as câmaras dos graus, cada câmara serve para uma finalidade de acordo com o Rito, por exemplo: A Câmara Ardente, lugar onde o Aprendiz é submetido às últimas cerimônias iniciáticas.

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São Tiago, o "irmão do Senhor", martirizado  no ano 62 de nossa era.

São Tiago, o “irmão do Senhor”, martirizado no ano 62 de nossa era.

Data do escrito. Entre 60 e 62.

Autor. São Tiago, o ‘irmão do Senhor’.

Informações adicionais.

  • Um dos irmãos de Jesus (Mt. 13,55; Mc. 6,3).
  • Jesus ressurreto lhe apareceu (I Cor. 15, 7).
  • Estava junto aos discípulos na ascensão e no cenáculo (At. 1, 12-14).
  • Foi visitado por Paulo recém convertido (Gal. 1, 18-19).
  • Teve papel importante no Concílio de Jerusalém (At. 15, 13-49)

Destinatários. Os discípulos de Cristo, em geral.

Palavras-chave. Guerras. Pelejas. Prazeres. Amizade. Inimizade. Orgulho. Humildade. Graça. Resistência.

Texto Grego (Receptus) Tradução.


1 ¶ De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?

2 Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis.

3 Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.

4 Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

5 Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes?

6 Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.

7 Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.

8 Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações.

9 Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza.

10 Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará.

1 ποθεν πολεμοι και μαχαι εν υμιν ουκ εντευθεν εκ των ηδονων υμων των στρατευομενων εν τοις μελεσιν υμων

2 επιθυμειτε και ουκ εχετε φονευετε και ζηλουτε και ου δυνασθε επιτυχειν μαχεσθε και πολεμειτε ουκ εχετε δε δια το μη αιτεισθαι υμας

3 αιτειτε και ου λαμβανετε διοτι κακως αιτεισθε ινα εν ταις ηδοναις υμων δαπανησητε

4 μοιχοι και μοιχαλιδες ουκ οιδατε οτι η φιλια του κοσμου εχθρα του θεου εστιν ος αν ουν βουληθη φιλος ειναι του κοσμου εχθρος του θεου καθισταται

5 η δοκειτε οτι κενως η γραφη λεγει προς φθονον επιποθει το πνευμα ο κατωκησεν εν ημιν

6 μειζονα δε διδωσιν χαριν διο λεγει ο θεος υπερηφανοις αντιτασσεται ταπεινοις δε διδωσιν χαριν

7 υποταγητε ουν τω θεω αντιστητε τω διαβολω και φευξεται αφ υμων

8 εγγισατε τω θεω και εγγιει υμιν καθαρισατε χειρας αμαρτωλοι και αγνισατε καρδιας διψυχοι

9 ταλαιπωρησατε και πενθησατε και κλαυσατε ο γελως υμων εις πενθος μεταστραφητω και η χαρα εις κατηφειαν

10 ταπεινωθητε ενωπιον του κυριου και υψωσει υμας


O assunto desses versos pode ser aplicado ao conflito individual de cada cristão, isso leva a uma abordagem metafísica do texto. Porém, o contexto parece indicar a aplicação coletiva, ou seja, os versos devem ser lidos como relativos aos conflitos na vida comunitária. Naturalmente, isso não significa que os versos não possam ser aplicados aos indivíduos, e, também aos casos particulares, essas ocorrências serão explicitadas no decorrer da leitura. O quadro abaixo pretende situar o leitor acerca do contexto em que se encontra a passagem em questão, destacando o aspecto comunitário da mensagem da epístola.

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Breve exegese.

(v. 1) “Donde vêem”. O capítulo inicia em tom retórico, a dúvida chama os leitores (ouvintes) à reflexão.

(v.1) ‘Guerras e Pelejas’. (gr. pólemos e mákhe), a primeira palavra se refere a guerra no sentido coletivo, a segunda, se refere aos conflitos separados, as batalhas em situação de guerra.

O que trás à tona a possibilidade da dupla leitura dos versos, individual e coletiva. Que pode ter como referência a concepção comum entre os antigos da relação entre o micro e o macrocosmo.

(v.1) “Vossos deleites”. (gr. hedoné), prazer, desejo, aqui com significado negativo, maus desejos, os latinos usam a palavra concupisciência (lat. cobiça, ambição, ardente por alguma coisa), no cristianismo, essa palavra carrega o significado de apetite desordenado, com referência a prazeres condenados por Deus, a moral cristã incorpora nesta categoria aquilo que reconhecem como prazeres carnais. Preferimos entender que os prazeres aqui condenados são aqueles que de algum modo tendem para a uma complacência que contradiz a vontade de Deus, posto que centralize ao ego, é egoísta.

(v.1) “Membros”. (gr. mélos), pode se tratar dos membros (corpo) dos discípulos, ou dos membros do corpo d Cristo, a Igreja. Em todo caso temos egoísmo é a causa dos conflitos listados pelo autor.

(v.2) “Cobiçais” (gr. epithumêo), desejar ardentemente, o autor destaca que o cobiçoso nunca está satisfeito com o que possuí (Pv.30, 15). Nesse verso aparece palavra grega phoneuté (assassinar), que não consta em algumas traduções, embora figure nos textos: Críticus e no Receptus. As escrituras cristãs estabelecem uma relação entre o ódio e o assassinato, segundo o evangelho, odiar é diante de Deus, um pecado tão grave quanto assassinar (Mt.5, 22), todo comportamento egoísta indica a sobrevalorização de si e o desprezo ao outro, a cobiça mostra que o cobiçoso se considera mais valioso, e, portanto, mais digno dos bens que vê nos outros, do que aquele que os possuí.

(v.2) “[…] nada tendes, porque não pedis.”. Não pedir pode demonstrar autoconfiança exagerada, a confiança em seus próprios esforços para conquistar o que se deseja, no discípulo, deve ser dosada com a compreensão de que todos os seus caminhos e projetos estão sob a direção de Deus, o que também é assunto deste capítulo (Tg. 4, 13-17), pois Deus é que dá o que é melhor para a humanidade.

(v.3) “Pedis e não recebeis […]”. O autor movimenta sua fala, no primeiro momento diz que os discípulos não pediam, a seguir, afirma que pediam, porém não recebiam. O que significa essa última sentença? Talvez signifique que não basta apenas pedir, é necessário saber pedir. Há uma forma de oração (petição) correta e outra incorreta. Não nos referimos a práticas distantes do espírito bíblico, que pretendem “ordenar”, “decretar” ou mesmo “profetizar” a benção desejada, também não nos referimos à suposta necessidade em se especificar para Deus, nos mínimos detalhes, aquilo que almejamos, conforme ensina o pastor Paul Yonggi Cho , como se Deus não soubesse o que necessitamos antes mesmo de que peçamos (Vide Salmo 139). No evangelho o propósito da oração é contado diante de Deus, há uma forma de petição que corresponde à vontade de Deus para nós (I Jo. 5,14), e, é essa forma que se considera “correta”, segundo a Bíblia, a vontade divina é que nos orientemos por amor, a Ele e ao próximo, na medida em que nossas orações não são egoístas, elas são expressão desse amor, estaremos, então, orando em consonância à vontade divina. Porém, esse tipo de oração nasce no discípulo na medida em que nele habita Cristo, agindo deste modo a graça, que é doação de Deus.

(v.3) “[…] gastardes em vossos deleites”. Os deleites aqui são expressão deste egoísmo, eles representam orações feitas apenas para a satisfação pessoal, feitas sem ocupar-se das necessidades essenciais, sem considerar as necessidades alheias, sobretudo a necessidade da salvação, comum a todo ser humano. Tiago parece dizer que Deus não atende orações nesse espírito, mesmo que peçamos coisas boas.

(v. 4) “Adúlteras” (gr. moikalídes). O texto Críticus trás apenas o feminino, já o Receptus, trás ambos os gêneros: moikoi kai moikalídes, “adúlteros e adúlteras”. A palavra se refere àqueles que não são fiéis aos votos maritais. Aqui se deve interpretar como uma metáfora, seguindo a mesma tradição em que se insere o profeta Oséias (cap.2), onde esposa de Yahvé¸ Israel, é infiel servindo outros deuses. Neste verso a metáfora é mais aguda, pois se refere a cada discípulo individualmente, e, engloba a adesão ao espírito do mundo.

(v.4) “amizade com o mundo” (gr. philía tou kosmou). A philía, amizade, envolve o amara e o ser amado, a busca da satisfação própria, do reconhecimento, da glória deste mundo, se constitui em inimizade contra Deus (gr. ektrós tou theou), vide. I Jo. 2,15.

(v.5) “[…] ou cuidais vós que em vão diz a escritura: Deus deseja ciosamente o espírito que fez habitar em vós?”. Deus procura com zelo o espírito que originalmente insuflou no ser humano. Aqui se fundamenta o apelo subseqüente, o apelo à conversão (vv. 7-9).

(v. 6) “Deus resiste aos soberbos, […] mas, dá graça aos humildes.”.
O soberbo (gr. hyperphanós), arrogante, alguém que pensa de si mesmo mias do que convém.
O humilde (gr. tapeinós), que reconhece suas limitações, consequentemente, coloca sua confiança em Deus, e, Dele depende, por isso encontra maior graça.

(v.6) “dar graça […] resistir”. Benevolência e oposição, esta última significa uma oposição constante, por parte de Deus, em relação à soberba.

(vv. 7-10) Destacamos aqui alguns pontos.

1º – Submissão como índice de humildade, todavia, a submissão de que tratam as escrituras, é uma submissão voluntária e por amor, jamais por medo ou coerção.

2º – Resistir ao diabo é resistir ao espírito deste mundo, pois ambos têm os mesmo objetivos, lançar os seres humanos uns contras os outros, lançar os seres humanos em inimizade contra Deus, afastar o ser humano de Deus.

3º – A conversão a Deus só é possível devido à “conversão” Dele para conosco (Vide Zac.1,3; Mal.3,7).

4º – A purificação interior se traduz em vida e prática do bem.

 

5º – Aquele que se humilha perante o Senhor, que reconhece Nele seu único apoio, convertendo-se de seu mau caminho, receberá a honra eterna.

Filosofia Como Pensamento Crítico e a Estrutura do Pensamento Mítico.

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Escola de Atenas: AutorRafael Sanzio (1506-1510) Fonte:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Atenas

Escola de Atenas: Autor Rafael Sanzio (1506-1510) Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Atenas

Normalmente o curso de filosofia começa com a pergunta: “o que é a filosofia?”

Muitas são as respostas, tradicionalmente dadas, “método de pensamento rigoroso”; “arte da reflexão”; “formação do espírito crítico e da autonomia”, e todas essas, ou uma e outra, enraizadas numa atitude de “espanto” e “admiração”!

Detendo-nos nestas respostas comuns, podemos assumir que a filosofia é a “formação do pensamento crítico (ou também atitude crítica).

Dizer que a filosofia é a formação do pensamento crítico é na verdade “trocar alhos por bugalhos”, pois isso não nos esclarece muita coisa!

Mas o que significa, então, esse pensamento crítico?

A partir do comportamento de Sócrates, especialmente, os filósofos consideram que o pensamento crítico é o resultado da convergência, da união, de duas atitudes, que podem ser classificadas como ‘negativa’ e ‘positiva’, respectivamente. A atitude

Busto do Filósofo Sócrates. Museu do Louvre, Paris.

Busto do Filósofo Sócrates. Museu do Louvre, Paris.

negativa é a rejeição dos i e pré-juízos, enquanto a atitude positiva é a interrogação sobre a verdade das coisas.

Este processo de inquirição, de questionamento, pela verdade é identificado com a reflexão filosófica e esta se organiza em torno de três perguntas básicas: ‘o que é?’; ‘como é?’ e ‘por que é?’.

Mas, por que fazemos estas perguntas, ou dito de outro modo, por que o ser humano começou a filosofar?

A origem da filosofia, segundo Platão se encontra na reação de ‘admiração’ diante do mundo, já Aristóteles, seu discípulo, diz que é o ‘espanto’ quem dá origem à filosofia. De qualquer forma ambas as reações atestam o reconhecimento de nossa ignorância e a necessidade em buscar respostas racionais. Comumente estas se associam estas reações com o relativo distanciamento diante do mundo, algo semelhante ao novo nascimento, pois como crianças os filósofos perguntam sobre as coisas e também se perguntam sobre si mesmos (“o que somos?”; “por que somos?” e “como somos?”).

Enfatizamos que a filosofia tem a razão como principio, e, isso significa dizer que ela não se contenta com respostas que não sejam racionais.

Por que é importante destacar este dado?

Porque nem sempre foi assim, mesmo entre os gregos “explicações’ fundadas sobre a crença ou o senso comum eram amplamente aceitas.

A despeito da beleza e riqueza da poesia grega, cujas origens remontam a Homero e Hesíodo, cerca do século IX a. C., quando a formação dos gregos era realizada através da oralidade. Neste período, longe da figura do filósofo que busca respostas racionais

Homero e Hesíodo.  Por meio deles  conhecemos o que podemos chamar de 'cosmoteogônias'.

Homero e Hesíodo. Por meio deles conhecemos o que podemos chamar de ‘cosmoteogonias’.

acerca da verdade, encontramos o aedo (poeta) e ele é ‘o portador da palavra sagrada’ que recebeu através da inspiração das Musas. Ele fala, portanto, não das coisas conforme a compreensão humana, mas fala da natureza sagrada, da origem dos deuses e do universo (inclusive da humanidade).

Portanto, sua narrativa é mitológica, pois o mito é uma forma narrativa e o logos é a ‘palavra’, porém o mito é a narrativa aproximada, que fala por imagens de coisas que estão além da razão humana.

Por volta do século VI a. C., Pitágoras, ou os seus discípulos, os pitagóricos, assumiram que o logos é a faculdade preponderante nos exercícios numéricos (matemáticos), cuja narrativa ou descrição preza pela exatidão, assim o logos foi separado do mito, para expressar, a partir de então, apenas aquilo que é passível de racionalização, o logos tornou-se razão, e, é com esta faculdade que os filósofos investigam e questionam acerca de tudo.